DecemberCapítulo 1
Há 3 anos, 31 de dezembro
Uma rajada de ar gelado da meia-noite entrou pelas minhas narinas, afiada como uma lâmina, trazendo consigo um leve cheiro metálico de inverno.
Enterrei o rosto no cachecol e me inclinei em direção ao aquecedor. Talvez fosse porque estava congelando lá fora, mas, por mais que o aquecedor brilhasse em um vermelho intenso, o frio dentro do cômodo insistia em permanecer.
Ainda assim, comparado a ficar ao ar livre, aquele lugar era o paraíso. As estradas estavam cobertas por uma camada opaca de gelo, resultado da combinação entre a temperatura congelante de -12 °C e a neve que caiu dois dias antes. Só para chegar até onde eu estava, havia sido uma luta para não escorregar.
Mas não eram apenas as estradas que estavam enevoadas. Minha mente também estava. Uma névoa de letargia pairava sobre meu corpo, mesmo enquanto meus pensamentos corriam de um lado para o outro. Eu me sentia quase bêbado.
O culpado mais provável pelo meu estado atual era a grande quantidade de ervas supressoras que eu havia ingerido. Elas impediam que ômegas como eu entrassem no cio, mas parecia que, dessa vez, eu tinha exagerado na dose.
N/: Ômega: um dos três sexos secundários. Ômegas podem engravidar independentemente do sexo biológico primário e liberam feromônios característicos, perceptíveis apenas por alfas e outros ômegas.
Por sorte, eu estava em uma área que passava por uma enorme obra, então não havia muitas pessoas por perto.
Praticamente toda aquela parte da cidade estava sendo reconstruída. Por isso, nos fins de semana, quando não havia trabalhadores em atividade, o lugar se transformava em uma cidade fantasma.
Uma onda de sonolência invadiu minha mente enevoada, quase me arrastando para o sono. Lutando para permanecer acordado, comecei a cantar baixinho para mim mesmo.
Eu tinha ouvido aquela música particularmente cativante enquanto caminhava pelo distrito comercial. Na minha memória, o som se misturava à imagem das ruas iluminadas como se fosse dia, lotadas de pessoas se divertindo. Não conseguia me lembrar da letra, então me contentei em cantarolar um hmm-mm-mm até que o clímax se aproximasse. Era a única parte da qual eu lembrava das palavras.
No instante em que abri a boca para cantar a letra em voz alta, um som agudo rasgou o ar.
CRIIIIII —
BUM!!
Os ruídos ensurdecedores, que certamente vinham dali perto, me fizeram recobrar os sentidos na mesma hora. Será que tinha acontecido algum tipo de colisão lá fora? Fosse o que fosse, tinha soado como um acidente de carro.
Saí às pressas do contêiner marítimo onde estava e usei a lanterna do celular para olhar ao redor. De que direção os ruídos tinham vindo?
Seguindo o caminho indicado pela minha memória, avancei com cuidado até a estrada coberta de gelo. A uma curta distância, avistei faróis brilhantes. Me aproximei e vi uma motocicleta caída em um trecho de cascalho sem pavimentação, sem ninguém sobre ela.
— Por acaso, o motorista está bem?
Olhei ao redor e logo encontrei um corpo curvado, encostado em um muro próximo.
— E-Ele ainda está vivo?!
— Senhor, está tudo bem?
Silêncio. Nenhuma resposta, muito menos qualquer reação.
— Ele morreu sentado?!)
Me aproximei do homem com cautela e cutuquei delicadamente seu braço. Imediatamente, ele ergueu a mão e me deu um tapa violento, me afastando.
— Ufa, não é um cadáver!
Soltei um profundo suspiro de alívio. Retirei a mão depressa e me virei para ir embora, considerando meu dever cumprido.
Foi então que meus olhos pousaram na perna do homem. Os dedos do pé, que deveriam estar apontados para cima, estavam virados para dentro.
— Ah, sua perna está bem?
— Cai fora.
Provavelmente, a culpa era dos supressores, mas minha mente interpretou as palavras do homem como um conselho atencioso para que eu conduzisse meu futuro sombrio por um caminho melhor, em vez de reconhecê-las como uma ameaça rosnada entre os dentes. Eu estava bastante preocupado com ele, então não parecia tão absurdo imaginar que quisesse me oferecer algo em troca da minha gentileza.
Com o coração transbordando de calor e gratidão, respondi:
— Vou chamar uma ambulância para você. Como esta área está em obras, não passam muitas pessoas por aqui que poderiam lhe dar uma carona.
— Não, não faça isso! — ele respondeu apressadamente.
Fiquei imóvel, mas não foram as palavras que me paralisaram. Foi o tom da voz dele. Parecia jovem.
— Espera, esse cara é só um garoto?
Minha boca se moveu sem minha permissão.
— Você está no ensino médio?
Os ombros do garoto se encolheram, uma confirmação bastante clara. Mas o que um menor de idade estava fazendo andando de moto em uma parte praticamente abandonada da cidade, bem no meio do...
— Você fugiu de casa?
— Merda — murmurou o garoto, oferecendo outra confirmação óbvia.
Examinei o jovem, que permanecia ereto e aparentemente era incapaz de mentir. Fiquei surpreso por minha pergunta espontânea ter acertado em cheio. Agora que sabia que ele era jovem, não podia simplesmente deixá-lo ali, naquele frio. Era perigoso demais.
— Você machucou a perna, não foi? Se eu chamar uma ambulância, ela vai chegar rapidinho, mas está frio demais aqui fora. Vamos...
— Não se atreva a chamar a porra de uma ambulância.
— ...voltar para onde eu estava por enquanto — terminei, ignorando a interrupção.
Fiquei parado, olhando para ele por um tempo, sem saber o que fazer em seguida. Os olhos do garoto disparavam adagas na minha direção por trás da viseira escura do capacete, então recuei alguns passos discretamente. Uma rajada violenta de vento invernal atravessou a estrada estreita e preencheu o espaço entre nós.
Funguei e enterrei o nariz no cachecol firmemente enrolado ao redor do meu pescoço. Talvez eu devesse simplesmente voltar para o calor do contêiner e chamar uma ambulância de lá. Se ele não quisesse me acompanhar, não era como se eu pudesse arrastá-lo à força.
Mesmo assim, não queria deixá-lo sozinho ali. Ele era só um garoto. Um garoto que havia levado a moto até uma área deserta, como se estivesse tentando se esconder.
Normalmente, eu não me importaria nem um pouco com um adolescente fugitivo quase da minha idade. Naquele dia, porém, algo estava diferente. Talvez fosse porque eu tivesse ingerido ervas supressoras demais ou porque sabia que não havia mais ninguém por perto para ajudá-lo. Talvez fosse simplesmente porque estava frio demais. Eu não fazia ideia.
De qualquer forma, precisava convencê-lo a voltar comigo de algum jeito. Vamos ver... As palavras que alguém da idade dele mais gostaria de ouvir seriam...
— Você é um alfa, não é?
N/: Alfa: um dos três sexos secundários. Alfas produzem feromônios específicos que afetam significativamente o comportamento dos ômegas.
Dessa vez, nenhuma sequência de palavrões veio na minha direção. Em vez disso, ele estremeceu.
— Como... Como você sabe?
Eu não sabia. Só havia perguntado se ele era um alfa para massagear seu ego o suficiente para convencê-lo a me acompanhar até o contêiner. Eu também não conseguia sentir nem um vestígio de feromônios vindo dele.
— Ele deve ser um alfa recessivo.
Com a consciência pesando, encolhi-me dentro do cachecol, como uma tartaruga se recolhendo ao casco.
— E-Eu simplesmente soube — menti descaradamente.
— Você é um ômega? — perguntou o garoto.
— Se concordar em me acompanhar até um lugar quentinho, talvez eu conte.
Ele virou a cabeça para o outro lado diante da minha sugestão, como se quisesse demonstrar desinteresse. Fiquei olhando para ele, esperando algum tipo de resposta, mas tudo o que recebi foi outra forte rajada de vento. Ela me atingiu pelas costas, bagunçando meu cabelo e me congelando da cabeça aos pés.
Enfiei as mãos nos bolsos e bati os pés no chão.
— Está fazendo dez graus negativos aqui fora, mas parece que está fazendo ainda mais frio. Se ficar sentado aí por mais cinco minutos, seu pau vai congelar e cair.
A cabeça do garoto se virou bruscamente na minha direção. Como esperado, nenhum homem era indiferente à importância de seu precioso membro.
— Cuida da porra da sua vida — murmurou ele.
— Só estou cuidando de você — respondi, dando de ombros. — Um pau é uma coisa bem importante para um alfa.
Talvez meu conselho sincero tivesse surtido efeito, porque o garoto soltou um breve suspiro.
— Se eu for com você, vai parar de falar de paus?
— Sim — respondi sem hesitar.
Eu já estava farto daquele frio. Até meu cachecol começou a ficar congelado.
Enquanto o garoto hesitava, estendi a mão e agarrei seu braço. Ele pareceu ofendido com o toque e tentou se soltar, mas não o larguei.
— Não consigo carregar você — falei sem rodeios. — A estrada está escorregadia demais. Se eu cair, nós dois vamos acabar com uma passagem só de ida para o outro lado. Então tente ficar de pé sozinho.
O garoto não se mexeu, ainda desconfiado. Sacudi seu braço.
— Vamos — insisti.
Ele suspirou novamente, claramente irritado, mas finalmente se levantou. Imediatamente, cambaleou, incapaz de apoiar o peso na perna machucada, mas eu o segurava com firmeza suficiente. Ainda bem que tínhamos praticamente a mesma altura e o mesmo peso.
Caso contrário, talvez ele fosse pesado demais para eu conseguir sustentá-lo.
Eu estava preocupado que ele mudasse de ideia e me empurrasse, fazendo com que nós dois caíssemos de cara na neve, mas, surpreendentemente, isso não pareceu ser um problema. Ele passou o braço sobre meus ombros, aparentemente tendo finalmente cedido, e, quando o guiei para a frente, me acompanhou obedientemente.
— Não é longe — avisei, envolvendo suas costas com o braço enquanto dava mais um passo.
Ele se apoiou em mim, fazendo o possível para seguir meu ritmo, mas tropeçou por causa da perna machucada.
Lancei um rápido olhar para o garoto, tentando avaliar como ele estava, mas ele continuou tentando acompanhar meu passo sem dizer uma palavra. Segurando-o com uma das mãos, liberei a outra para direcionar a lanterna do celular à nossa frente.
A estrada estava escorregadia sob nossos pés. A distância até o contêiner, que em qualquer dia normal levaria de um a dois minutos para percorrer, parecia se estender por quilômetros.
O que pareceu uma eternidade depois, finalmente chegamos ao nosso destino.
Assim que se sentou no sofá, o garoto soltou um suspiro dolorido. Em seguida, tirou uma das luvas e pressionou a mão contra o joelho da perna machucada. Ele devia estar sentindo bastante dor.
Me sentei na outra extremidade do sofá e empurrei o aquecedor um pouco mais para perto dele. A essa altura, ele já havia apoiado a cabeça na parede e, embora eu ainda não conseguisse ver seu rosto por causa do capacete, quase podia imaginar sua expressão tensa e os olhos fortemente cerrados enquanto lutava contra a dor.
Lançando olhares furtivos em sua direção, tirei discretamente o celular do bolso, na esperança de ligar para o 119 antes que ele percebesse o que eu estava fazendo.
N/: 119 é o número de emergência sul-coreano
para bombeiros e ambulâncias/SAMU).
— Ei, pare com isso — murmurou ele, erguendo a cabeça da parede. — Não ligue para ninguém.
— Se você diz...
Pousei o celular, mas, por enquanto, estava apenas fingindo obedecer. Ele pareceu perceber que eu não era confiável, porque passou um bom tempo me encarando — ou provavelmente me fuzilando com o olhar.
Na verdade, só porque o capacete estava virado para mim não significava que ele estivesse me olhando. Pelo que eu sabia, poderia estar dormindo. Desde que tentei fazer aquela ligação, ele não havia emitido nem um pio.
Eu era uma pessoa sociável demais para aguentar silêncios longos e constrangedores como esse. Na verdade, eu os odiava. Em circunstâncias normais, teria soltado a primeira coisa que me viesse à cabeça só para acabar com o clima desconfortável. Estranhamente, porém, eu me sentia quase em paz. Decidi atribuir aquilo também às ervas supressoras.
Do lado de fora do silencioso contêiner, o vento rugia. A ventania fazia as janelas vibrarem nas molduras. Eu agradecia por termos um abrigo, mesmo que o cômodo ainda estivesse bastante frio.
Funguei e voltei a examinar o adolescente fugitivo sentado no sofá à minha frente.
— Por que você fugiu de casa? — perguntei, finalmente quebrando o silêncio.
— Isso não é da sua conta — declarou o garoto.
Pela resposta imediata, ele provavelmente estava acordado o tempo todo.
Eu também não me importava tanto assim com a resposta, mas precisava conquistar algum nível de confiança para poder ligar para o 119 sem que ele fizesse um escândalo.
— Talvez não seja, mas ainda estou curioso.
O garoto não disse nada. Apenas ficou me encarando em um silêncio que parecia demonstrar perplexidade. Embora, pensando melhor, eu ainda não conseguisse ver seu rosto. Ele realmente poderia ter adormecido dessa vez.
Justamente quando comecei a suspeitar que tivesse apagado, o garoto voltou a falar:
— Quantos anos você tem?
Achei a pergunta fofa e sorri. Algo me dizia que ele consideraria minha diversão irritante, mas não fiz nenhum esforço para escondê-la.
— Mais velho que você, é claro — respondi com uma provocação, empurrando o aquecedor um pouco mais para perto dele.
— Não faça essa merda — disparou ele de repente.
Fiquei olhando para o garoto, mais confuso do que irritado com sua mudança repentina de atitude. As ervas supressoras pareciam estar amortecendo qualquer reação emocional negativa que eu pudesse ter. Será que deveria começar a tomá-las o tempo todo, em vez de apenas durante o cio?
N/: Cio é o estado fisiológico recorrente dos ômegas, marcado pelo aumento do desejo sexual e da fertilidade, frequentemente direcionado aos alfas (os alfas chamam de rut)
Antes que pudesse refletir mais sobre o assunto, o garoto se inclinou bruscamente para a frente, me tirando dos pensamentos. Enquanto eu observava, ele empurrou o aquecedor de volta na minha direção, irritado.
Só então percebi o que o havia deixado tão alterado.
— Por que está sorrindo? — resmungou ele, mal-humorado.
— Porque você é fofo?
Abri a boca para dizer aquilo em voz alta, mas me contive. Não podia correr o risco de irritá-lo ainda mais se quisesse conseguir ligar para o 119.
Em vez disso, optei por dizer:
— Pelo visto, nem fugir de casa nem se machucar abalam um alfa. Você parece bem tranquilo com tudo isso.
A palavra alfa deve ter tocado em algum ponto sensível do garoto, pois ele virou a cabeça e voltou a encarar a parede.
Com cautela, perguntei:
— Os alfas também passam por dificuldades?
Achei que ele responderia com outro, isso não é da sua conta, mas não disse uma palavra.
Estava claro que ele havia fugido de casa por causa de algum conflito relacionado à sua condição de alfa. Mas, como parecia ser um alfa recessivo, aquilo não era tão surpreendente.
— Vamos, me conte — insisti. — Sou todo ouvidos.
Em vez de atender ao meu pedido, ele repetiu a pergunta que fizera antes:
— Você é um ômega?
Parei por um instante, ponderando minha resposta. Considerando a quantidade de ervas supressoras que havia ingerido, eu não deveria estar liberando feromônios. Poderia mentir e dizer que era um beta, e ele nunca perceberia a diferença. Além disso, seria mais conveniente fingir que não era um ômega, principalmente porque eu nunca mais voltaria a vê-lo.
N/: Beta: um dos três sexos secundários. Betas não produzem nem detectam feromônios e não passam pelos ciclos reprodutivos vivenciados por alfas e ômegas.
Então, nem eu sabia por que estava lhe dizendo a verdade.
— Sim, sou um ômega. Um ômega recessivo cuja vida é atormentada por dificuldades.
Ele ficou me encarando. Sorri para ele, mas, com metade do meu rosto escondido no cachecol, ele provavelmente não conseguiu ver.
— E qual é a sua dificuldade? – perguntei.
Como antes, ele demorou a responder. Parei de insistir e comecei a cantar baixinho a mesma música de antes do acidente. Minha cabeça já estava lúcida o suficiente para que eu me lembrasse de alguns trechos da letra, mas apenas de fragmentos, então preenchi as lacunas com mmm-mm-mm.
No meio da música, senti o olhar irritado do garoto sobre mim. Sorri novamente, dessa vez erguendo a cabeça o suficiente para tirá-la do cachecol e permitir que ele visse a curva dos meus lábios.
— Olhe para mim, garoto. Esse é o tipo de confiança que vem com a vida adulta.
Ele reagiu instantaneamente ao meu desafio silencioso, soltando um suspiro exasperado. Meus lábios estremeceram, mas os comprimi para impedir que minha satisfação ficasse evidente.
— Sou um alfa, mas também não sou — murmurou o garoto.
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