December — Capítulo 2

December
Cap. 2por Lunaris scan
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December

Capítulo 2

Lunaris scan2.503 palavras~11 min de leitura

Ah, então era por isso que ele havia fugido de casa. Mas o que exatamente queria dizer com “sou um alfa, mas também não sou”?

Naquele momento, eu estava realmente curioso, mas o tom dele era tão sério que não consegui insistir no assunto. Tudo o que consegui dizer foi, de maneira um tanto hesitante:

— Isso... parece difícil.

O garoto virou o rosto, como se não suportasse mais olhar para mim. Devia ser realmente difícil.

— E quanto aos ômegas? – perguntou de repente.

— O que tem nós?

— Você disse que também passa por dificuldades.

— Ah. Bem, isso é bastante óbvio.

Não sabia por onde começar, então fiquei olhando para o vazio enquanto selecionava alguns exemplos.

— Bem, primeiro, os ômegas são seres humanos racionais, mas, periodicamente, entram no cio como animais. Quando estamos nesse estado, ficamos excitados por alfas com feromônios fortes, mesmo que sejam completos idiotas. Isso já é ruim o suficiente, mas, se um desses idiotas nos marcar, ficamos presos a eles pelo resto da vida. Alguns de nós têm o azar de chamar a atenção de alfas dominantes desprezíveis e acabam até abandonando os estudos para escapar deles.

Eu não sabia por que estava contando tudo aquilo ao garoto. Como ele sequer poderia começar a entender? Ele era um alfa, alguém que havia passado a vida inteira sendo tratado como um ser superior. Mas talvez eu conseguisse, ao menos, fazê-lo se solidarizar comigo.

— Por exemplo, pense na pessoa que você mais odeia nesse mundo. Quem seria?

— Meu pai.

E-Eita.

— Então, quem seria a segunda pessoa que você mais odeia?

— Minha mãe.

... Não era de admirar que ele tivesse fugido.

— Desculpe – falei, suspirando. — Que tal alguém da escola que mais irrita você?

— Não consigo pensar em ninguém.

— Ah, qual é. Tem que existir pelo menos um alfa convencido que desfila por aí com arrogância, agindo como se fosse o dono do mundo.

O garoto inclinou a cabeça para trás, como se contemplasse o teto. Depois de um momento, voltou a olhar para mim e balançou a cabeça.

— Não. Não que eu consiga lembrar.

— Será que a escola dele só tem um aluno?

Justo quando comecei a me perguntar se ele estudava em casa, o garoto acrescentou:

— Por que você simplesmente não toma ervas supressoras?

É claro que eu tomava ervas supressoras. Mas elas não resolviam tudo. Se resolvessem, não haveria ômegas sendo marcados contra a própria vontade. E, por serem quem eram, alfas e betas jamais compreenderiam plenamente o quanto era aterrorizante a possibilidade de ser marcado à força.

— As ervas supressoras não resolvem tudo – esclareci. — Elas não funcionam contra os feromônios de alfas dominantes. E, se você deixar transparecer que está tomando essas ervas, os canalhas ficam todos animados e passam a persegui-lo como cães farejadores atrás de uma presa. Eles sentem uma espécie de prazer doentio em provocar reações nos ômegas e, quando conseguem, saem se gabando para os amigos como se tivessem conquistado algum tipo de troféu.

Um silêncio carregado de descontentamento se instalou.

— Eu não sou assim – disse o garoto por fim.

Dessa vez, não consegui esconder meu sorriso, que chegou até os olhos.

— É, você não parece ser desse tipo.

Encontrei o olhar do garoto através do capacete, mas desviei os olhos quando percebi seu corpo estremecer. Ele vinha tremendo de vez em quando desde que eu o trouxe para dentro, e parecia que ainda não havia conseguido se aquecer completamente.

Tirando do pescoço meu cachecol ridiculamente comprido, estendi-o e me levantei para enrolá-lo ao redor do garoto. Considerando como ele havia rejeitado o aquecedor, estava preparado para que também recusasse o cachecol, mas o único sinal de resistência foi um pequeno recuo.

Voltei ao meu lugar, sentindo o olhar do garoto me acompanhar durante todo o trajeto.

— ...Você.

Pisquei para ele.

— O que tem eu?

— Você está com um cheiro ruim... Desde mais cedo.

Congelei no meio do movimento de me sentar, com a bunda suspensa no ar.

— Como assim, estou com cheiro ruim?!

— Mas eu tomo banho o tempo todo! – protestei. — Na verdade, duas vezes por dia.

O garoto não respondeu. Apenas virou o rosto para o lado, sem dizer mais nada.

— Talvez ele esteja falando dos meus feromônios?

Eles deveriam estar bem fracos, considerando a quantidade de ervas supressoras que eu havia tomado. Mesmo que não estivessem, ele era “um alfa, mas também não era”, então, de qualquer forma, não deveria conseguir senti-los.

Assim como existiam alfas dominantes extremamente poderosos, também existiam alfas recessivos que não eram muito diferentes dos betas. Eu suspeitava que ele pudesse ser um deles.

— Mas eu estou fedendo? O quê? Onde?

Cheirei meu próprio corpo atentamente, mas não consegui detectar nem o menor odor. Enquanto isso, o garoto encarava a parede, como se não suportasse virar a cabeça e respirar meu fedor.

Era a oportunidade perfeita para pedir ajuda sem ser pego. Tirei o celular silenciosamente do bolso e consegui enviar uma mensagem para o 119.

— Mas...

Estremeci ao ouvir aquela voz repentina e virei rapidamente o celular com a tela para baixo.

— Mesmo que os feromônios aproximem duas pessoas, elas ainda podem acabar gostando uma da outra, não é? – murmurou o garoto, com a cabeça apoiada na parede.

— É uma possibilidade, claro. Se você tiver muita, muita sorte. Mas não acredito nesse tipo de sorte.

O silêncio que se seguiu se prolongou por bastante tempo. Dessa vez, não me incomodei. Eu já havia cumprido minha missão de chamar o 119, então só precisava me acomodar e esperar que chegassem. Mesmo assim, seria falta de educação ficar mexendo no celular enquanto estava acompanhado, por isso mantive os olhos no brilho avermelhado do aquecedor e comecei a cantar novamente a mesma música de antes.

Voltei a substituir os trechos da letra dos quais não tinha certeza por mm-mm-mm e cantei baixinho a parte que lembrava, o clímax da música. Depois, voltei ao mm-mm-mm. O trecho da letra que* eu realmente conhecia era curto, mas, no silêncio imóvel do contêiner, parecia se prolongar por anos.

Quando terminei de cantar, percebi que o garoto não havia reagido em momento algum. Mesmo agora, permanecia completamente imóvel.

— Está com frio? – arrisquei perguntar.

Não houve resposta, mas me levantei mesmo assim. Só então percebi que ele estava tremendo muito mais do que antes.

— Ei, você está bem?

Sacudi delicadamente o braço do garoto, e seu corpo tombou frouxamente para o lado.

— Ei, ei!

Abaixei-me depressa para retirar o capacete dele. O rosto escondido por baixo parecia ainda mais jovem do que eu imaginava, o que me deixou chocado. E aquele rosto tão jovem, quase infantil, estava coberto por cabelos grudados de suor. Parecia que ele havia passado o dia correndo sob o calor escaldante do verão, não congelando naquele frio.

Tirei apressadamente um lenço do bolso e usei-o para enxugar o suor do rosto quente e corado do garoto. Ele parecia incapaz de abrir os olhos, provavelmente por estar completamente abatido pela febre, mas continuei falando para tranquilizá-lo.

— Está tudo bem, a ambulância vai chegar logo – assegurei. — Quando você chegar ao hospital, vai ficar bem.

Uma quantidade indeterminada de tempo se passou, mas pareceu uma eternidade. Fiquei inclinado sobre o rosto abatido do garoto, repetindo baixinho “Está tudo bem, vai ficar tudo bem”, enquanto passava os dedos pelos cabelos dele.

Justo quando comecei a pensar que deveria levá-lo ao hospital por conta própria, ouvi ao longe a sirene de uma ambulância.

Guardei o lenço no bolso e me levantei rapidamente. No entanto, antes que conseguisse ficar completamente de pé, o garoto agarrou meu pulso com força. Ele estava com tanta febre que eu conseguia sentir o calor emanando da palma de sua mão.

Olhei para baixo e vi o garoto me observando com os olhos semicerrados. Parecia atordoado pela febre. Estendi a mão e acariciei sua cabeça mais uma vez, tentando confortá-lo.

— Muito bem – murmurei, elogiando-o como faria com minha irmã mais nova enquanto soltava meu braço de seu aperto firme.

A sirene do 119 estava mais alta agora, então não podia demorar mais. Queria ir embora antes que me encontrassem.

Abri a porta do contêiner e saí silenciosamente. Ao longe, ouvi um paramédico chamando pelo paciente. Caminhei depressa na direção oposta e me escondi para não ser visto.

Logo depois, uma grande agitação tomou conta do contêiner. Fiquei escondido nas proximidades até que tudo finalmente se acalmasse e todos fossem embora. Então, voltei à porta e entrei sorrateiramente.

O aquecedor havia sido desligado, e meu cachecol estava caído no chão. Peguei-o, sacudi a poeira e me sentei no sofá onde o garoto estava. Meu celular vibrava no bolso, então o tirei e conferi a tela. Havia várias mensagens não lidas da minha mãe e da minha irmã.

Minha mãe foi breve:

Me ligue assim que chegar à casa do seu tio, está bem? Estou preocupada com você. Está frio demais para ficar na rua a essa hora.

Já a mensagem da minha irmã era praticamente um textão.

{ Oppa, aquele alfa desgraçado que é seu sunbae, ou sei lá o quê, apareceu aqui em casa mais cedo. Fez um escândalo, dizendo que ia encontrar você, por mais que tentasse se esconder, e depois saiu furioso. Chamamos a polícia, mas, quando perceberam que aquele filho da puta era um alfa dominante, só disseram para resolvermos isso entre nós e foram embora como se não fosse nada. Aqueles policiais também são uns filhos da puta.}

N/: Oppa é um termo honorífico usado por mulheres para se dirigir a um homem mais velho. É comum entre irmãos, mas também pode ser usado entre amigos e pessoas próximas.

Sunbae é alguém com mais experiência ou senioridade em um grupo, como uma escola ou empresa.

Soltei um suspiro tenso e rolei a tela um pouco mais para baixo para ler o restante das mensagens. A expressão “filho da puta” apareceu mais quatro vezes, mas, pelo que entendi, ela achava que eu deveria tirar um tempo de folga da escola.

Inspirei profundamente o ar gélido que preenchia o contêiner. Meu nariz já estava escorrendo havia algum tempo, e funguei enquanto enrolava novamente o cachecol ao redor do pescoço.

Meu encontro com o adolescente fugitivo já parecia pertencer a um passado distante. Retomei a longa espera, assim como fazia antes do acidente. Precisava aguentar ali mais um pouco, pelo menos até os trens voltarem a funcionar.

Meu último dia como alguém de vinte anos estava terrivelmente frio.

Há 1 ano, 23 de dezembro

O fim do ano era uma época perigosa para os ômegas, mas o Natal era o pior dia de todos. Eu tentava não sair de casa durante o inverno, com medo de encontrar algum alfa descontrolado em período de rut. Se, de alguma forma, eu chamasse a atenção de um deles, poderia acabar seguindo-o feito um completo idiota, sem conseguir evitar.

N/: Rut é um período recorrente de intensificação dos instintos sexuais dos alfas, análogo ao cio dos ômegas. Essa fase é marcada por um desejo intenso de acasalamento.

Naquele dia, porém, abri uma exceção. Surgiu um problema no trabalho do meu tio – ele trabalhava com design de interiores – e agora ele havia ficado com uma cozinha pela metade, que deveria ter sido concluída no dia anterior.

— Você não precisaria fazer muita coisa – disse ele, hesitante.

— Só preciso de alguém para limpar todos os restos de entulho da parte da obra que chegou a ser concluída. Acha que consegue dar conta?

A pergunta veio acompanhada de preocupação, mas descartei-a sem pensar duas vezes.

— Eu consigo — concordei.

Eu ficava feliz em fazer qualquer coisa que meu tio me pedisse. Afinal, ele havia sido gentil o suficiente para me deixar morar de graça na casa dele, em Pohang, durante os últimos dois anos.

N/: Pohang, ou Pohang-si, é uma grande cidade portuária localizada na província de Gyeongsang, na Coreia do Sul.

Meu tio, no entanto, não pareceu totalmente convencido. Olhou para mim com preocupação e, por fim, cedeu e saiu para procurar o dono da empresa de instalação que havia fugido com o dinheiro dele.

Dirigi a caminhonete do meu tio até o local da obra e a estacionei no fundo de um beco que saía da rua principal, perto da praia de Yeongildae. Depois de localizar meu destino, um restaurante de dois andares recém-reformado, abri a porta da frente.

O que encontrei lá dentro não era nada menos que um verdadeiro caos. Os espaços onde os equipamentos deveriam ter sido instalados estavam vazios e, em vez deles, havia latas de tinta, sacos vazios e pedaços de madeira espalhados por todo o lugar.

Examinando o espaço à minha frente, cocei timidamente a nuca. Achei que o maior desafio daquele trabalho seria o vento feroz que soprava do oceano lá fora, mas parecia que eu havia subestimado completamente a quantidade de trabalho que tinha pela frente. Não era nem que o lugar parecesse difícil de limpar. Era simplesmente enorme.

— Ainda assim, só preciso tirar o lixo e arrumar tudo. Vai ser moleza.

Três horas depois, esparramado no chão de tanto cansaço, fui obrigado a admitir que o trabalho não tinha sido moleza coisa nenhuma. Para piorar, eu ainda estava longe de terminar. Mais da metade do lugar continuava intocada.

A falta de aquecimento fazia o restaurante estar terrivelmente frio, mas eu havia me movimentado tanto que já nem conseguia sentir. O cachecol que eu enrolara firmemente no pescoço – e que costumava carregar comigo como uma espécie de amuleto da sorte – já havia sido abandonado fazia tempo.

Ainda assim, bastaram alguns minutos deitado no chão gelado para que todo o calor que eu havia acumulado desaparecesse. Por mais que estivesse suado, ainda era inverno.

Mas não era por causa do frio que eu não me levantava. Eu tinha um problema muito maior: estava morrendo de fome.

Queria simplesmente sair para comer alguma coisa e depois voltar ao trabalho, mas havia cometido o erro de não me planejar com antecedência.

Embora as comemorações de Natal só começassem no dia seguinte, as ruas já estavam lotadas.

Andei por aí até encontrar um lugar tranquilo o suficiente para conseguir um assento: o Kimbap Heaven, aberto vinte e quatro horas por dia.

N/: Kimbap Heaven é uma rede de restaurantes que serve refeições rápidas e informais, como kimbap, ramyeon e tteokbokki.

Não havia praticamente nenhum casal no estabelecimento, mas o lugar estava lotado de outros clientes que pareciam ter decidido escapar da posição de vela fazendo uma peregrinação até as portas do paraíso.

Demorei um pouco, mas finalmente consegui encontrar um lugar vazio. Não era o melhor assento, pois uma janela de vidro próxima deixava entrar uma corrente interminável de ar frio, mas eu não estava em posição de fazer exigências.

Naquele momento, eu estava com tanta fome que teria devorado qualquer coisa que chegasse perto da minha boca, mesmo que estivesse completamente congelada. Fiz meu pedido às pressas e, enquanto esperava a comida, peguei o celular para me distrair. Havia um fórum que eu costumava visitar quando precisava passar o tempo, e o título de uma das publicações chamou minha atenção.

[Um alfa que não é alfa]

Fim da leitura

Capítulo 2 concluído

December

Tradução de Lunaris scan