December — Capítulo 3

December
Cap. 3por Lunaris scan
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December

Capítulo 3

Lunaris scan2.314 palavras~10 min de leitura

Só o fato de a palavra “alfa” se repetir naquele título já foi suficiente para quase me fazer perder a cabeça, mas também despertou algo no fundo da minha mente. Eu não tinha ouvido falar de algo parecido antes?

Movido pela estranha sensação de familiaridade, cliquei na publicação.

[Já ouviram falar de alfas latentes? Pelo visto, suas características secundárias ficam ocultas até que eles despertem, mas, quando isso acontece, suas características de alfa são totalmente ativadas, e seus corpos passam por tantas mudanças que dá até para chamar isso de metamorfose.

Para despertar as características de um alfa latente, é necessário estimulá-lo com os feromônios de um ômega. Na maioria dos casos, isso acontece quando o alfa latente está no início da adolescência, período em que suas características sexuais secundárias começam a se desenvolver. Pelo visto, também existem casos extremamente raros de alfas latentes que não despertam nessa fase. Porém, se despertarem mais tarde, ao longo da vida, estarão a caminho de se tornar superultra-alfa.]

O conteúdo da publicação não me era estranho. Eu já tinha ouvido dizer que, entre os alfas dominantes, existiam alfas hiperdominantes que precisavam passar por um despertar. Na vida real, porém, esses alfas praticamente não existiam, então encontrar um deles seria o mesmo que encontrar um unicórnio. Nem preciso dizer que eu nunca tinha conhecido um.

Um superultra-alfa, hein? Fico imaginando qual seria a altura de um desses. Dois metros e meio, talvez? Isso significa que o negócio deles provavelmente também seria enorme...

Eu estava completamente absorto nesses pensamentos inúteis quando um grito repentino ecoou do lado de fora. Todos que estavam comendo se assustaram e ergueram a cabeça como suricatos. No entanto, o vidro branco e embaçado impedia que alguém enxergasse direito o que acontecia lá fora. Como eu tinha o privilégio de estar sentado ao lado da janela, passei a mão pelo vidro e espiei.

Lá fora estava escuro, mas os postes de luz que brilhavam sobre a rua a iluminavam como se fosse dia. Assim, consegui enxergar claramente o que acontecia do outro lado da via de quatro faixas.

A primeira coisa que vi foi um rapaz caído no chão, com os cabelos desgrenhados. A causa de sua situação ficou evidente assim que notei o homem corpulento parado diante dele. O sujeito agarrou o rapaz menor pelos cabelos, girou-o à força e praticamente o arremessou para o lado.

Não conseguia ouvir o que o homem corpulento dizia, mas o sorriso debochado em seus lábios era visível mesmo àquela distância. As bochechas do rapaz estavam vermelhas, quase como se ele estivesse bêbado.

Percebi imediatamente que não era o álcool nem o frio lá de fora que tinham deixado seu rosto daquela cor: ele era um ômega no cio. Isso já era um problema por si só, mas a situação era ainda pior por causa do alfa que o pressionava com seus feromônios. Pela expressão do ômega, estava claro que aquilo não era consensual.

Ao vê-lo ofegar por entre os dentes cerrados, como se os feromônios do alfa o estivessem levando ao limite de seu autocontrole, meu corpo se lembrou dos ecos de uma experiência semelhante. Um arrepio percorreu minha espinha e, como a maré que recua, todo o ar pareceu abandonar meus pulmões.

Como se estivesse no piloto automático, me levantei e saí do restaurante. Mas, assim que atravessei a porta, hesitei e fiquei paralisado, sem conseguir sequer cruzar a rua. E se os feromônios daquele alfa forem tão fortes que também me afetem?

— U-Ungh... Me deixa em paz! – gritou o ômega.

De alguma forma, mesmo estando tão longe, consegui ouvi-lo como se ele estivesse bem ao meu lado.

O alfa agarrou novamente os cabelos do ômega, que continuava no chão, e tentou puxá-lo para que ficasse de pé. Vários outros homens, que presumi serem amigos daquele brutamontes, cercaram o ômega e começaram a rir. O rapaz resistiu com todas as forças, agarrando-se à rua fria e suja como se sua vida dependesse disso.

Embora o alfa chamasse a atenção por seu físico impressionantemente musculoso, tudo o que eu conseguia enxergar eram os dedos desesperados do ômega, tão tensos que haviam ficado brancos enquanto ele se agarrava aos tijolos salientes da calçada. Avancei impulsivamente, mas só consegui dar um passo, pois, naquele instante, o alfa corpulento foi arremessado violentamente contra a calçada.

O golpe foi tão forte que fez o homem enorme capotar e rolar direto para o meio da rua. Os pneus guincharam quando os carros frearam bruscamente, pegos de surpresa.

BIIIIIIIIIP!

BIIIIIIIIIP!

As buzinas soaram estridentes, enquanto os murmúrios dos curiosos aumentavam ainda mais o caos.

Eu estava tão concentrado no ômega que, a princípio, não entendi o que havia acontecido. Logo percebi, porém, que todos os espectadores olhavam na mesma direção. Segui o olhar deles e vi um novo homem parado ao lado do ômega, presumivelmente aquele que havia lançado o alfa corpulento para o outro lado da rua.

Sua postura gritava “mero espectador”, mas a presença avassaladora que emanava fazia com que parecesse qualquer coisa, menos isso. Ele olhava acima de todos, observando a cena como um senhor de suas terras. Sua estatura imponente e seu corpo musculoso mal ficavam escondidos sob o grosso casaco de inverno. O pelo do capuz – que lembrava a juba de um leão – emoldurava seu rosto assustadoramente inexpressivo.

É um alfa dominante, sussurrou meu instinto.

Não havia como seus feromônios chegarem até mim de onde eu estava, mas, ainda assim, recuei num sobressalto, incapaz de me controlar.

Enquanto isso, os amigos do alfa corpulento estavam ocupados tentando tirá-lo do chão. Eles o colocaram de pé e depois o ajudaram a voltar para a calçada, onde o alfa alto estava parado. Um deles falou com o homem, mas eu estava longe demais para ouvir o que dizia.

O alfa alto escutou o amigo do brutamontes em silêncio, esperando que ele terminasse a história que estivesse inventando. Então, deu um único passo ameaçador à frente, e todos recuaram, encolhendo-se de medo. Pelo visto, foi só isso que precisou fazer para colocá-los em fuga.

Ao perceberem o quanto pareciam covardes, o alfa corpulento e seus amigos olharam para a multidão do outro lado da rua. Seus rostos ficaram vermelhos de vergonha quando perceberam que todos estavam olhando para eles. Provavelmente, era a primeira vez na vida que experimentavam a sensação de ser motivo de deboche, em vez de despertar inveja ou medo.

Claramente constrangido, o grupo de alfas se afastou às pressas, com o rabo imaginário entre as pernas. Alguns dos espectadores ao meu redor soltaram risadas satisfeitas diante daquela cena. Eu, porém, não consegui me juntar a eles.

Eles só haviam se submetido porque a hierarquia da sociedade alfa estava em jogo. Se o alfa alto não tivesse aparecido ou tivesse decidido não ajudar, nada teria impedido aqueles homens de pisotear o ômega como bem entendessem.

Eu não tinha o luxo de me contentar com a pequena satisfação de ver aqueles homens desprezíveis serem humilhados. Afinal, eu também sabia o que era ser pisoteado.

A cautela pairava sobre mim como uma maldição. Ainda assim, não conseguia tirar os olhos do alfa alto. Eu o observava como se estivesse hipnotizado, sem esconder minha pura admiração. Ao meu redor, os espectadores –que provavelmente eram, em sua maioria, betas– faziam o mesmo.

Naquele instante, o alfa alto se virou em direção à rua, e seus olhos passaram pela região onde eu estava. Por um momento, achei que ele fosse me ver, e meu coração deu um salto. Mas seu olhar estava fixo em um táxi próximo. Ele ajudou o ômega exausto a entrar no veículo, fechou a porta e se afastou sem olhar para trás.

A essa altura, algumas pessoas que pareciam ser amigas dele haviam se reunido ao seu redor e conversavam com ele, sorrindo de orelha a orelha.

Será que ele também sorriu? Pensei. Mas, como estava de costas, não consegui ter certeza. De qualquer forma, ele não ficou ali por muito tempo. Em poucos instantes, havia desaparecido no meio da multidão.

Quando voltei à minha mesa, o ramyeon e o kimbap que eu havia pedido já estavam à minha espera. Eu estava morrendo de fome, mas, enquanto comia o ramyeon, só conseguia pensar naquele homem alto. Como seria ser um alfa tão forte? Viver sem sentir tanto medo de tudo?

N/: Ramyeon: Macarrão instantâneo coreano, muito popular por ser rápido de preparar e geralmente servido bem apimentado.

Kimbap: Prato coreano feito de arroz cozido e vários ingredientes (como cenoura, ovo e carne) enrolados em uma folha de alga seca e cortados em rodelas.

Parei de mastigar, perdido em pensamentos, mas, por fim, afastei aquela ideia da cabeça. Coloquei um pedaço de kimbap na boca e tomei um gole do caldo quente e apimentado do ramyeon.

Não adiantava ficar remoendo isso. Afinal, ele não tinha nada a ver comigo.

Presente, 5 de dezembro

Sempre que dezembro chegava, eu sentia o mesmo alívio. Saber que o ano estava quase acabando nunca deixava de me trazer certa paz. Naquele ano, porém, era diferente, porque eu finalmente voltaria à faculdade.

Fazia três anos que eu havia trancado a matrícula, praticamente fugindo da faculdade. Para ser sincero, aquela decisão acabou sendo uma bênção disfarçada. Graças ao dinheiro que tinha economizado durante os dois anos anteriores, consegui ajudar minha família a sair de uma situação difícil doze meses atrás. Foi o suficiente para impedir que nossa casa fosse tomada pelo banco, e minha mãe não precisou arriscar agravar sua lesão nas costas voltando a trabalhar.

O único problema era que, originalmente, aquele dinheiro seria usado para pagar a mensalidade da faculdade. Com minhas economias esgotadas, não tive escolha a não ser tirar um terceiro ano de licença. Ainda assim, não me arrependia nem um pouco do que havia feito.

Fazia apenas alguns dias, em 1º de dezembro, que eu havia saído da casa do meu tio, em Pohang, e voltado para a casa dos meus pais. Eu tinha pensado em esperar até pouco antes do início do ano letivo para ir embora, assim poderia continuar trabalhando o máximo possível no armazém de uma transportadora onde estava empregado. Mas um único telefonema da minha mãe foi suficiente para me fazer mudar de ideia.

— Se as notas da Yura também estiverem uma bagunça neste semestre, é melhor ela desistir de uma vez e ir morar no interior. Em vez de estudar, pode se concentrar em espalhar fertilizante numa plantação de arroz.

Soltei uma risada ao ouvir minha mãe ameaçar a minha irmã com uma carreira na agricultura, mas bastou refletir por um instante para perceber como eu mesmo estava. Eu não abria um livro didático havia três anos. Era muito mais provável que, no fim do semestre, fosse eu quem merecesse colher arroz em vez de colher os frutos dos estudos.

Com a sensação de que precisava me apressar, voltei para Seul mais cedo, a fim de começar a estudar com antecedência. Usei os estudos como desculpa, mas também queria recuperar a vida que havia perdido quando fui obrigado a abandonar a faculdade: voltar a ser um universitário comum.

Depois de me instalar em Seul, uma das primeiras coisas que fiz foi procurar um emprego de meio período para ajudar a pagar as mensalidades. Até mesmo aquele processo tão corriqueiro me fez sentir como um estudante outra vez. E tive sorte de conseguir um emprego relativamente bem remunerado em pouco tempo.

O lugar onde eu trabalharia ficava na região onde, tantos anos antes, havia uma grande obra em andamento. Agora, parecia outro mundo. Arranha-céus com mais de cinquenta andares se alinhavam dos dois lados de uma avenida impecavelmente pavimentada, com oito faixas. Entre os prédios comerciais e os complexos de apartamentos de vários andares, havia grandes parques e lagos espalhados pela região. As fileiras de casas geminadas de alto padrão, em particular, pareciam pertencer a outro país.

— Esta região mudou muito – comentei com meu novo chefe, dono de um restaurante enorme.

— É a sua primeira vez no Reino? – ele me perguntou.

— Reino?

— Ainda não ouviu esse nome? É assim que todo mundo chama este bairro, porque a maioria dos prédios pertence à mesma pessoa.

— Todo este complexo? – perguntei, incrédulo.

— Não, toda esta parte da cidade.

— Ah. Isso realmente é um reino...

— Pois é. Até aquela roda-gigante ali pertence a ele.

Uma roda-gigante? Ah, aquela. Eu tinha conseguido ver parte dela surgindo no fim da avenida durante o trajeto de ônibus até ali. A colossal estrutura de ferro dava um toque estrangeiro àquela parte já deslumbrante da cidade. Não tinha pensado muito nela na hora, mas, depois de ouvir a palavra “reino”, não consegui deixar de imaginar aquela atração cintilante como uma coroa. Será que esse reino também tem um príncipe?

— Tem certeza de que não quer trabalhar como garçom? – perguntou meu chefe.

Balancei a cabeça apressadamente.

— Prefiro me dedicar à lavagem de pratos na cozinha.

— Bem, como você é um ômega, eu entendo – disse ele, suspirando.

— Este é um bairro rico, então há muitos alfas por aqui. Mesmo assim, os clientes adorariam ver um rostinho bonito como o seu... O que acha de tomar aqueles novos supressores? Ouvi dizer que são bem eficazes.

— Uma caixa custa o equivalente ao salário de uma semana – respondi. — Mas, se o senhor comprar, eu tomo.

— ... Vá para a cozinha, então.

Ele acrescentou:

— Tem mais alguma coisa que queira perguntar?

— Eu estava me perguntando por que o senhor prefere contratar estudantes da Universidade W. para trabalhar na cozinha – respondi.

Pelo que meu chefe havia me contado, o principal motivo de eu ter sido escolhido para a vaga de lavador de pratos era o fato de estudar naquela universidade. Talvez ele gostasse de ajudar os estudantes por também ser ex-aluno de lá.

— Ah, isso é por causa do nosso senhorio. Ele tem uma queda pelos estudantes da W.U.

— Será que é preciso ter um parafuso a menos para conseguir administrar um negócio de sucesso...?

Fim da leitura

Capítulo 3 concluído

December

Tradução de Lunaris scan