DecemberCapítulo 4
Graças a um novo colega de trabalho prestativo, não demorei muito para entender melhor o que estava acontecendo com o proprietário, sua obsessão pelos estudantes da W.U. e o motivo por trás da preferência do meu chefe por contratá-los.
— Se formos acreditar nos rumores, o presidente Noh – nosso proprietário, o bilionário do ramo imobiliário — visita este restaurante com frequência — explicou Kijoon, um colega que também trabalhava meio período e era responsável pelo atendimento às mesas. Ele estava me explicando quais seriam minhas responsabilidades no restaurante quando nossa conversa acabou tomando aquele rumo. — Pelo visto, é porque ele sabe que nossos funcionários de meio período estudam na Universidade W.
— Por que precisaríamos nos basear em rumores? – perguntei, confuso.
— Bem, ninguém sabe como é o rosto do presidente Noh, então não podemos afirmar com certeza que ele vem aqui – admitiu Kijoon. — Mas, pelo menos, sabemos que a estratégia do chefe deu certo.
— Como assim?
— Pelo visto, o presidente Noh é mão de vaca de verdade. Quando chega a hora de renovar os contratos de aluguel, ele sempre aumenta os preços e reduz a duração dos contratos. – Ele me lançou uma piscadela. — Pelo menos com todo mundo, menos conosco.
A estratégia realmente tinha funcionado.
Ainda assim, minha curiosidade não estava totalmente saciada.
— Mas o chefe disse que sou o único funcionário que estuda na W.U. atualmente. Então, isso não é verdade?
— O salário daqui pode ser melhor que o de outros lugares, mas, fala sério, que estudante de uma universidade de elite escolheria se sujar trabalhando na cozinha quando pode ganhar dinheiro fácil dando aulas particulares?
Hum... Eu?
— É por isso que os estudantes do campus satélite da W.U., como eu, trabalham aqui – concluiu Kijoon.
Meu novo chefe, que à primeira vista parecia tão simples e simpático, era um empresário implacável até a medula.
— Afinal, por que o presidente Noh é tão obcecado pelos estudantes da W.U.? – perguntei.
— Existem várias teorias sobre isso – respondeu Kijoon, erguendo a mão e começando a contá-las nos dedos. — Teoria número um: ele queria muito estudar lá, mas foi reprovado no vestibular dez anos seguidos. Número dois: a paixão dele era estudante da W.U., morreu num acidente trágico e virou um fantasma do campus. Número três: ele tem um neto que estuda no campus principal. Qual você acha que é a verdadeira?
— ... Com certeza, e sem a menor dúvida, a número três.
Kijoon balançou a cabeça para mim.
— Que nada, estou convencido de que é a primeira. Não tem como alguém ser tão obcecado por uma coisa tão comum.
Mas, seguindo essa lógica, a segunda opção não faria mais sentido? Com certeza era a mais romântica das três...
— Enfim, é um alívio ter um verdadeiro estudante da W.U. trabalhando conosco.
— Estudar no campus satélite não faz de você menos “verdadeiro”, Kijoon.
Ele abriu um sorriso radiante com minhas palavras.
— Obrigado. Também acho. Ah, e amanhã você está no turno da tarde, certo? Pode ir embora. Aproveite seu último dia de folga.
Kijoon tinha me mandado sair e me divertir, mas, para ser sincero, eu não tinha muita coisa que quisesse fazer. Pensei em ligar para algum amigo, mas então me lembrei da biblioteca que tinha visto durante o trajeto de ônibus até o restaurante e resolvi ir até lá.
Decidi que seria bom conhecer a biblioteca, já que pretendia estudar ali de manhã antes de ir trabalhar.
Ao me aproximar da entrada do prédio, notei que a arquitetura tinha uma imponência que dava à biblioteca a aparência de um antigo templo grego. Só de olhar para ela, senti meu amor pelo aprendizado voltar a despertar.
Mas meu entusiasmo ardente só conseguiu me aquecer por algum tempo. Lá fora estava congelando. Desviei os olhos da fachada majestosa da biblioteca, enfiei o nariz no cachecol e apressei o passo em direção à entrada para escapar do vento uivante.
Pouco antes de entrar, olhei ao redor. Era difícil acreditar que, apenas três anos antes, eu havia me entupido de ervas supressoras e passado uma noite dentro de um contêiner de carga não muito longe dali. Também tinha conhecido aquele adolescente fugitivo naquele lugar. A paisagem havia mudado, mas alguns pontos de referência continuavam ali, o suficiente para eu ter certeza de que era o mesmo lugar.
Ainda assim, quando imaginava o cenário sombrio daquela época, com prédios pela metade e entulho de construção espalhado por toda parte, parecia que eu estava pensando em um mundo completamente diferente. E, no entanto, ali estava eu, praticamente sem mudanças. De tudo o que existe neste universo, talvez os seres humanos sejam os que mudam mais devagar.
Assim que entrei na biblioteca, escolhi um livro para pegar emprestado e me acomodei em uma sala de estudos em grupo para começar a leitura. Infelizmente, mal havia começado a me concentrar no que estava lendo quando um gemido baixo me fez erguer os olhos da página.
A sala tinha mesas largas de madeira e não possuía divisórias, então identifiquei a origem do som em poucos segundos. Ele vinha de um garoto que, no máximo, devia estar no sétimo ano.
Com o rosto corado, as mãos trêmulas e as costas curvadas, ele parecia um ômega prestes a entrar no cio. Considerando sua pouca idade, provavelmente não tinha muita experiência em lidar com os sintomas.
Enquanto eu observava, o garoto se levantou e saiu apressado da sala. O menino que estava sentado ao lado dele, claramente um amigo, foi atrás.
Se a situação tivesse terminado aí, eu não teria ficado tão preocupado. No entanto, os sorrisos maliciosos dos dois estudantes do ensino médio sentados diante dos lugares vazios dos garotos mais novos me deixaram apreensivo. Pelo menos um deles parecia ser um alfa.
— Duvido que façam alguma coisa com uma criança tão nova, mas...
Só por precaução, tirei uma pequena sacola plástica da mochila e saí da sala.
Precisei vasculhar vários banheiros até finalmente encontrar, no segundo andar da biblioteca, aquele onde o garoto ômega havia entrado. O amigo dele estava lá dentro, olhando preocupado para uma das cabines, que estava ocupada.
— Ei, você está bem? Quer que eu chame alguém? – perguntou ele ao ômega.
— Sim, seria bom. – me intrometi.
Assustado, o amigo se virou e me encarou de olhos arregalados. Ignorei-o e bati com a mão livre na porta da cabine do ômega.
— Ei, garoto, você não comeu nenhuma erva supressora hoje?
— Antes de vir para a biblioteca... tomei comprimidos... – respondeu o menino, ofegante.
— Os comprimidos não são suficientes – falei sem rodeios. — Eles não são muito potentes, então o efeito não dura muito. Por isso, comer as ervas diretamente é a maneira mais segura de controlar os sintomas do cio. Vou te dar algumas das minhas. Abra a porta.
Seguiu-se um breve silêncio imóvel, que interpretei como hesitação do garoto. Mas a porta se abriu pouco depois.
O estudante do ensino fundamental estava sentado sobre a tampa fechada do vaso sanitário, com as costas curvadas. Abri a sacola plástica e lhe entreguei algumas ervas supressoras secas.
— Vamos, mastigue e engula.
O rosto corado do garoto se contorceu, e lágrimas começaram a se acumular nos cantos dos olhos.
— Mas... as ervas têm um gosto horrível.
Meus lábios se contraíram diante daquela reclamação infantil, mas contive o riso e decidi lhe dar um conselho sério sobre a vida.
— Então você pode dormir com um alfa e acabar engravidando.
O garoto recuou horrorizado, estendeu a mão às pressas, pegou as ervas que eu segurava e as enfiou na boca. Dei-lhe mais um pouco, por garantia, e mandei que comesse até o último pedacinho.
Depois que ele fez o que eu disse, acrescentei:
— Entre em contato com seus pais ou com algum adulto que possa ajudar e peça para virem buscá-lo.
O garoto fungou, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Claramente, ele não estava exagerando quando dizia odiar as ervas. Mesmo assim, conseguiu assentir.
— Vou ligar para o meu tio.
Atrás de mim, ouvi o ruído de roupas se mexendo quando o amigo do garoto se sobressaltou.
— Hã? Aquele tio? Que daora!
O que havia de tão “daora” no tio do garoto? Será que ele era um alfa todo-poderoso de quase três metros de altura ou algo assim?
— Não volte para a sala de estudos sem um adulto – aconselhei o amigo do ômega, que ainda repetia que era “daora”. – Tem um alfa lá dentro. Vou ficar com as mochilas de vocês até seu tio chegar.
O garoto assentiu vigorosamente.
— Você está falando daqueles hyungs do ensino médio? Eles estão seguindo ele desde antes mesmo de chegarmos aqui. Ficaram falando um monte de coisas, dizendo que, quando as características sexuais secundárias de alguém acabam de despertar, a pessoa fica instável e os supressores não funcionam direito. Um deles disse que ele “seria um brinquedinho perfeito” ou algo assim, e então os dois começaram a rir... Foi nojento.
N/: Hyung: termo honorífico usado por homens para se dirigirem a outro homem mais velho. É comum entre irmãos, mas também pode ser usado entre amigos e conhecidos próximos.
Eu queria dizer: “Então vocês deveriam ter ido para casa imediatamente”, mas me calei. Afinal, eles eram apenas crianças. Além disso, confrontá-los demais poderia deixá-los irritados comigo, especialmente naquela idade tão instável.
— Ele disse que tinha tomado os supressores, então ficaria bem, por isso... – murmurou o amigo do ômega, se justificando enquanto olhava para o chão. Em seguida, ergueu a cabeça e olhou para mim. — Você também é um ômega?
Não respondi. Apenas lhe dei um sorriso e saí do banheiro. Depois, procurei um funcionário da biblioteca, expliquei o que estava acontecendo e pedi que ficasse de olho nos garotos. Só então chegou a hora de voltar para a sala de estudos.
Quando peguei as mochilas dos estudantes do ensino fundamental, os dois garotos do ensino médio perceberam imediatamente. Ambos franziram a testa para mim, mas logo desviaram o olhar e começaram a cochichar entre si quando ergui as sobrancelhas na direção deles.
Continuei de olho nos dois mesmo depois de voltar ao meu lugar, mas, felizmente, eles não foram atrás do jovem ômega. Contudo, o pequeno alívio que senti se transformou em desespero quando, mesmo depois de duas horas, ninguém apareceu para buscar as mochilas dos garotos.
Eu estava morrendo de fome. Mas, pelo visto, ainda demoraria bastante até que eu pudesse sair para comprar alguma coisa para comer.
Não tive escolha a não ser enganar o estômago vazio com algumas xícaras de café da máquina de venda automática. No fim das contas, porém, isso só me deixou com mais fome. Cada gole tinha cem por cento de calorias e zero por cento de satisfação.
Quando decidi que, se ninguém aparecesse nos trinta minutos seguintes, correria até o primeiro andar para comprar alguma coisa na máquina de venda automática, senti alguém tocar meu braço.
Olhei por cima do ombro e vi o estudante do ensino fundamental, o ômega, parado atrás de mim. Assenti para ele, peguei a mochila dele e a do amigo e o acompanhei para fora da sala.
— Obrigado por me ajudar – disse ele com sinceridade, pegando as mochilas das minhas mãos.
— Não foi nada. Seus pais estão aqui?
Àquela altura, isso já não fazia tanta diferença, pois o estudante do ensino médio que era alfa e seus amigos tinham ido embora havia algum tempo. Mesmo assim, seria bom que o garoto tivesse alguém para protegê-lo, por precaução.
O jovem ômega balançou a cabeça, mas abriu um sorriso confiante.
— Não, só meu tio. Contei a ele sobre aqueles hyungs que me importunaram. Ele está procurando por eles para dar uma bronca.
Meus lábios se contraíram.
— Parece que ele se importa muito com você.
O garoto estufou o peito, orgulhoso com o comentário, mas logo franziu as sobrancelhas.
— Só que não conseguimos encontrá-los.
Assenti.
— É, eles saíram da sala de estudos com as mochilas há algum tempo.
O garoto pareceu decepcionado, mas logo se animou e declarou:
— Bem, tenho certeza de que vou encontrá-los de novo. Da próxima vez, vou ligar para o meu tio imediatamente.
Meu coração se aqueceu ao ver tanta confiança no amor do tio.
Convencido de que o garoto estaria seguro dali em diante, fiz um aceno de despedida e me virei para voltar à sala de estudos. Mas o menino agarrou meu braço.
— Ah, espere um pouco, por favor! – pediu ele.
Em seguida, olhou ao redor, como se estivesse procurando alguém. Logo, gritou:
— Tio! Aqui!
Ele chamava alguém que subia a escadaria aberta que atravessava o centro da biblioteca, conectando seus vários andares. Um homem olhou em nossa direção, subiu os últimos degraus até o nosso andar e começou a caminhar para cá.
A primeira coisa que me chamou a atenção foi a altura dele. Depois de assimilar isso, fui atingido novamente por seus olhos frios e penetrantes. Sem perceber, prendi a respiração. Por algum motivo estranho, ele também me parecia familiar.
Uma aura intensa e turbulenta emanava dele. Era a pura presença de um alfa poderoso, não seus feromônios.
— Espere... Será que é o mesmo homem que salvou aquele ômega em Pohang no ano passado?
Pisquei, surpreso, e então percebi de repente que o homem havia parado no meio do caminho. Seu olhar estava fixo em mim, sem vacilar.
Eu deveria ter me perguntado por que ele havia parado de andar de repente ou por que parecia tão impactado ao me ver, mas não consegui. Bastou olhar para ele para que meu cérebro entrasse em sobrecarga total.
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