December — Capítulo 5

December
Cap. 5por Lunaris scan
0%
December

Capítulo 5

Lunaris scan1.671 palavras~7 min de leitura

Vestido com uma jaqueta de pele de carneiro em tom carvão escuro e jeans escuros, o tio do ômega usava roupas completamente desprovidas de cor. Sua figura alta se destacava nitidamente contra o cenário da biblioteca silenciosa, fazendo com que tudo ao redor parecesse se dissolver em um borrão. Era como se sua aura tivesse forma própria e emitisse um brilho intenso.

De repente, recobrei a consciência e desviei o olhar às pressas. Eu devia ter perdido o juízo. Que diabos estava fazendo, encarando-o daquele jeito? Não voltei a olhar para ele, com medo de que tivesse percebido que eu estava vidrado em seu corpo.

Minha pele formigou, e meus sentidos ficaram em alerta máximo. Eu estava tão atento a cada movimento dele que nem precisava enxergar para saber que o tio do ômega – que parecia ser cerca de uma cabeça mais alto do que eu – havia se aproximado ou que tinha parado de se mover.

Eu precisava relaxar. Ele era apenas um alfa. Embora fosse um alfa muito, muito forte.

— Este é o meu tio – disse o estudante do ensino fundamental.

Ergui os olhos do chão e fiz um leve aceno para o alfa. Ele não respondeu, apenas continuou me encarando, impassível. Aquilo me deixou nervoso. Será que ele já tinha percebido que eu era um ômega? Não era uma hipótese tão absurda. Afinal, bastou um único olhar para que eu percebesse que ele era um alfa.

— E, tio, este é o cara que me deu as ervas supressoras – continuou o jovem ômega, revelando sem cerimônia uma pista clara sobre o meu sexo secundário.

Forcei um sorriso sem jeito.

— Tenho um monte delas comigo.

Ele continuou me encarando em silêncio. Para piorar, a expressão do tio do ômega era rígida e impassível.

Por que ele estava agindo daquele jeito? Será que achava que eu era o alfa que havia assediado seu sobrinho ou algo assim?

Quando eu já estava começando a ficar desesperado, o tio do ômega finalmente falou:

— Por que carrega tantas ervas? – perguntou, num tom indiferente.

A pergunta repentina me pegou de surpresa.

— Por nenhum motivo em particular – respondi, desviando-me de admitir que era um ômega, embora o simples fato de ter ervas supressoras comigo já fosse suficiente para me denunciar.

Estranhamente, o tio do ômega continuou olhando na minha direção, com um olhar opressivo. Ele tinha algum problema com o fato de eu ser um ômega?

Sustentei o olhar dele, sem desviar os olhos, e, justo quando achei que aquelas pupilas negras pareciam tremer, ele desviou o olhar e passou a mão pelos cabelos.

— Obrigado por ajudar meu sobrinho. –disse ele em voz baixa, voltando a olhar para mim.

A julgar apenas pela aparência, eu diria que aquele homem tinha mais ou menos a minha idade. No entanto, havia algo nele – talvez o tom grave e suave de sua voz? – que me fazia sentir como se fosse mais velho do que eu.

— Não foi nada – respondi, com um sorriso forçado. Em seguida, me virei imediatamente para o sobrinho dele.

— Vá para casa em segurança – disse, dando meia-volta logo depois para sair dali o mais rápido possível.

Consegui dar aproximadamente um passo antes que o animado “Está bem, obrigado!” do garoto fosse abafado por um firme:

— Espere, por favor.

— Sim?

— Poderia conversar comigo por um momento?

Abri a boca para perguntar o motivo, mas ele já havia se virado para falar com o sobrinho.

— Vá direto para casa. – ordenou.

O garoto olhou para mim e depois para o tio. Parecia achar estranho que seu parente alfa quisesse conversar comigo, e eu concordava plenamente com ele. Fosse o que fosse que o tio do ômega quisesse dizer, eu não estava nem um pouco interessado em ouvir. Ficar perto de alfas dominantes sempre me deixava desconfortável.

— Acho melhor você acompanhá-lo até em casa – sugeri ao tio do ômega. — Aquele estudante do ensino médio alfa que estava incomodando seu sobrinho pode ainda estar por perto.

Ele se virou para o sobrinho.

— Onde está seu celular? – perguntou.

O garoto puxou a manga para cima e mostrou o relógio inteligente em seu pulso.

— Aqui.

— Se acontecer alguma coisa, ligue para mim imediatamente.

— Está bem.

— Você tem supressores suficientes?

— As ervas são muito eficazes, então acho que vou ficar bem pelo menos até esta noite – respondeu o garoto. Depois, virou-se para mim em busca de confirmação. — Não é?

Pego desprevenido, assenti.

— É — concordei.

Aquilo pareceu ser toda a confirmação de que o tio precisava. Ele indicou a saída da biblioteca com um movimento do queixo.

— Então, acredito que consiga voltar para casa sozinho, não é?

— Claro! – respondeu o garoto, assentindo com entusiasmo.

Depois disso, tornou-se impossível demonstrar qualquer preocupação adicional com a segurança do jovem ômega. Eu havia pensado que mencionar a possibilidade que o alfa ainda poderia estar por perto o deixaria ansioso e faria com que se agarrasse ao tio por medo, mas eu estava completamente enganado.

O tio do ômega confirmou mais algumas coisas com o garoto antes de dispensá-lo despreocupadamente. O menino parecia já ter deixado todo o incidente para trás, como se não fosse nada demais, enquanto descia a escadaria central da biblioteca. Se havia alguma diferença, parecia até mais confiante do que antes.

Aquilo me deixou um pouco estranho. De certa forma, eu invejava a facilidade com que o garoto conseguiu se recuperar do que havia acontecido e voltar a ser quem era – sem mencionar a tranquilidade com que o tio o ajudou a fazer isso.

Foi então que me dei conta de que agora estávamos sozinhos. Virei a cabeça e encontrei os olhos negros dele fixos em mim mais uma vez. Seu olhar era tão intenso que parecia perfurar meu crânio. Será que ele tinha algum problema comigo?

Fazendo o possível para não demonstrar intimidação, perguntei em tom firme:

— Você queria me dizer alguma coisa?

Ele abriu a boca para responder, mas de repente desviou o olhar. Seus olhos pareciam distantes, como se contemplassem o vazio.

— Você estava estudando? – perguntou.

— Sim, então quero voltar a estudar o mais rápido possível – respondi sem rodeios.

A indireta era clara: se tinha alguma coisa a dizer, que fosse direto ao ponto.

Eu normalmente não era tão grosseiro ou insensível com as pessoas, mas, depois de ter sido forçado a me esconder por causa de um alfa dominante, elas haviam se tornado uma exceção à regra. Eu não me arrependia daquela decisão – não tive outra escolha –, mas a sensação de derrota absoluta que ela me deixou havia sido profunda e me tornou cauteloso. Como resultado, assumi uma postura defensiva perto de um alfa que havia se tornado um reflexo automático.

O tio do ômega pareceu perceber minha desconfiança, pois foi direto ao assunto.

— Poderia me passar seu número de telefone? – perguntou.

— Por quê?

— Você viu o rosto daquele estudante do ensino médio alfa e do amigo dele. Eu agradeceria se pudesse me ajudar a descobrir quem são.

Dessa vez, fui eu quem ficou olhando para ele em completo silêncio. Ele estava tão determinado assim a encontrá-los? Eles haviam intimidado o sobrinho dele de maneira bastante cruel, mas...

— Seu número de telefone, por favor – insistiu ele, olhando para o próprio celular.

Cedi e lhe dei meu número, mas ele não reagiu. Ficou olhando para o celular por um bom tempo. Quando comecei a me perguntar se havia algo errado, meu telefone tocou dentro do bolso. Ele devia ter apertado o botão de chamada.

Enquanto tirava o aparelho do bolso para conferir, ouvi o tio do ômega murmurar para si mesmo:

— Os quatro últimos dígitos são iguais...

Será que ele conhecia outra pessoa com um número parecido?

Assim como acontecia com a maioria das pessoas na Coreia, os quatro últimos dígitos do meu número correspondiam à data do meu aniversário. Eu havia mudado o restante do número quando saí de Seul, três anos antes, mas não consegui abrir mão daquela sequência final. Naquela época, aqueles números eram a única coisa à qual eu ainda podia me agarrar com todas as forças para preservar um pouco do meu orgulho. Talvez algumas pessoas achassem meu raciocínio ridículo, mas, apesar de já ter fugido, abrir mão deles teria sido como apagar a minha própria existência.

A enxurrada de lembranças do passado reforçou mais uma vez a consciência de que o homem à minha frente era um alfa dominante.

— Boa sorte para encontrar aqueles estudantes – falei.

Dando um grande passo para trás, virei e me afastei apressadamente, com medo de que ele tentasse me impedir de novo. Durante todo o caminho de volta à sala de estudos, senti o olhar dele sobre mim.

Embora tivesse recuperado meu lugar na sala de estudos, nenhuma informação do livro aberto à minha frente chegava ao meu cérebro. A expressão confiante do estudante do ensino fundamental ômega ao afirmar que conseguiria voltar para casa sozinho se recusava a sair da minha cabeça, sem falar no tio dele, que também era bastante difícil de esquecer. Até a fome havia sido temporariamente esquecida.

Desisti de tentar ler e me levantei. Vesti meu casaco acolchoado grosso e joguei a bolsa sobre o ombro. Provavelmente, o melhor seria ir embora.

Saí da sala de estudos e desci pela escadaria de emergência. Depois, devolvi o livro e fui para o primeiro andar, onde ficava o saguão da biblioteca. O ambiente tinha um pé-direito alto e estava frio por causa do ar que vinha de fora.

Parei antes de sair pela porta e me enrolei bem no cachecol. Ainda estávamos no início de dezembro, então a temperatura não havia caído muito abaixo dos -1..°C , mas eu era sensível ao frio por causa dos meus brônquios frágeis. Assim que a brisa gelada do inverno entrasse pelo meu nariz, ele começaria a escorrer.

Escondendo o rosto bem fundo no cachecol, estendi a mão para abrir a porta que dava para fora da biblioteca, mas fui impedido quando alguém agarrou meu braço por trás. O contato me assustou, e me soltei num sobressalto antes de me virar bruscamente para ver quem estava segurando meu braço.

Era o tio do ômega.

Fim da leitura

Capítulo 5 concluído

December

Tradução de Lunaris scan