DecemberCapítulo 6
O tio do ômega olhou para mim de cima, com o peito arfando como se tivesse corrido até ali.
Hã? Mas eu pensei que ele já tivesse ido embora. Meu coração disparou de surpresa – mas não de um jeito ruim. Em vez de nervosismo, uma onda de empolgação percorreu meu corpo. Mas... por que ele estava ali? O que estava acontecendo?
Voltando rapidamente a mim, engoli em seco. A expressão do tio do ômega continuava tão rígida quanto antes, e de repente comecei a suspeitar que tivesse feito alguma coisa errada. Senti meus olhos se arregalarem enquanto olhava para ele.
Sua expressão séria não mudou enquanto tentava recuperar o fôlego.
— Seu nome – disse, ofegante. — Por favor, me diga seu nome.
Ele tinha corrido até ali só para me perguntar isso? Atordoado, não respondi de imediato. Só abri a boca quando percebi que ele estava esperando uma resposta.
— Ah. É Song Yeonwoo.
— Song Yeonwoo – murmurou baixinho para si mesmo, olhando para mim.
Ele continuou repetindo meu nome em voz baixa, e eu não conseguia me acostumar com o som dele pronunciado por seus lábios.
Estranhamente, meu coração perdeu uma batida. Tentando ignorar aquela onda de emoções, dei um passo para trás, mas não consegui ir muito longe: ele ainda segurava meu braço. Tentei me soltar, porém ele não afrouxou o aperto nem um pouco. Em vez disso, estendeu a mão livre e colocou alguma coisa na minha palma aberta.
— Isto é para você.
Ele havia me entregado uma garrafa de vidro com café. Será que tinha ido até a sala de estudos para me dar aquilo? E, quando não me encontrou lá... Mas não, não havia como ele ter saído por aí me procurando só por causa disso. Engoli minhas fantasias junto com a saliva.
— Obrigado – agradeci, fechando os dedos ao redor da garrafa de café.
Ela estava quente, assim como a mão do tio do ômega estava quando roçou na minha. Minhas palmas estavam frias, como de costume, então o calor permaneceu sob a superfície da pele, como uma marca invisível.
Minha atenção estava voltada para outra coisa: os feromônios sutis que emanavam do corpo do tio do ômega.
Os feromônios de cada alfa tinham um cheiro próprio. Alguns exalavam um odor mofado e pegajoso, parecido com o cheiro de suor, enquanto outros cheiravam tanto a produtos químicos que respirar perto deles dava a sensação de estar inalando detergente. Mas o tio do ômega? Seu cheiro era completamente diferente, algo inteiramente novo. Seus feromônios eram sutis, mas tão envolventes que imediatamente senti como se estivesse me afogando neles.
Ele cheirava a árvores. E não apenas a um pequeno trecho de floresta, mas a uma extensão interminável que cobria uma cadeia de montanhas e se estendia em direção ao céu. Talvez fosse por causa do ar frio, mas, quando inspirei, por um instante tive a sensação de estar no meio daquela floresta coberta de neve.
Eu não estava no cio nem era particularmente sensível a feromônios, mas uma febre estranha começou a crescer dentro de mim. Nunca havia sentido uma atração tão intensa por nenhum alfa, nem mesmo pelos dominantes. Uma inquietação nervosa tomou conta de mim, chegando até a ponta dos dedos.
Puxei o meu braço em minha direção outra vez e, dessa vez, o tio do ômega me soltou sem resistência. No entanto, não foi a força dos meus esforços que me libertou. Seus dedos longos e esguios simplesmente haviam encontrado um novo alvo: as pontas caídas do meu cachecol.
— Hã? P-por que está fazendo isso? – perguntei, olhando para baixo antes que pudesse me conter. Será que ele tinha visto alguma mancha ou coisa assim?
— Só porque sim – murmurou, mantendo os olhos no meu cachecol. — É bonito.
Olhei mais atentamente para a parte do cachecol que conseguia ver daquele ângulo. A peça já tinha quase cinco anos; minha mãe o havia comprado para mim em uma liquidação de uma loja de departamentos. Será que era mesmo de alguma marca de luxo?
Eu ainda estava tentando assimilar a possibilidade de ter passado cinco anos usando um artigo de luxo sem saber quando o tio do ômega soltou meu cachecol e deu um passo para trás.
— Vou entrar em contato com você – afirmou com decisão.
— Yeonwoo, por que você fica olhando para o celular enquanto come? – minha mãe perguntou, exigente. — Está esperando alguma ligação?
Imediatamente, coloquei o objeto em questão sobre a mesa.
— Não – murmurei, balançando a cabeça enquanto levava mais uma colherada de arroz à boca.
— Sua mãe e eu ainda estamos planejando ir para o interior neste fim de semana – disse meu pai.
Sentado do outro lado da mesa, ele me observava comer e aparentemente havia decidido continuar a conversa que nós três estávamos tendo mais cedo.
— Vamos começar a arrumar a casa assim que chegarmos, mas, como é inverno, não há tanta coisa para fazer. Então, provavelmente, vamos acabar indo de um lado para o outro. Ainda vai demorar bastante até terminarmos tudo.
Assenti, indicando que havia entendido.
— Está bem.
Cerca de um ano atrás, meu pai havia sido vítima de um golpe terrível cometido por um amigo próximo. Ele praticamente tratava aquele homem como um irmão, e as consequências da traição foram muito difíceis para ele.
Recentemente, decidiu que queria voltar para sua cidade natal e sair de Seul. Ainda estava lutando para pagar todas as dívidas, então meus pais teriam que continuar economizando cada centavo, mas eu não tinha um bom argumento para fazê-lo mudar de ideia.
Toda aquela situação me fez perceber que era muito mais fácil juntar dinheiro para quitar uma dívida do que consertar um coração partido. Durante a minha infância, raramente vi alguma coisa abalar meu pai, mas a traição daquele amigo havia sido um golpe tão forte que ele levou quase um ano inteiro para voltar a ser, ao menos, uma sombra de quem costumava ser.
Parte do problema era que ele se culpava mais do que qualquer outra pessoa por ter sido enganado. Perdoar a si mesmo apesar disso e tentar se reerguer talvez tivesse sido a coisa mais difícil que já fez na vida.
Eu conseguia me identificar com ele. Depois do que aconteceu três anos atrás, eu também havia me sentido patético e inútil. Mesmo sabendo que não tinha sido culpa minha, ainda assim lutei para não me culpar por ter acabado na pior situação possível.
Naquela noite, enquanto estava deitado na cama, minha mente voltou ao encontro com o tio do ômega e à maneira como minha primeira reação havia sido imediatamente baixar a guarda contra ele. Naquele mesmo dia, eu havia conseguido um novo emprego de meio período em um bairro desconhecido, conhecido meus colegas de trabalho, recebido as orientações iniciais e explorado uma biblioteca antes de passar horas estudando. Ainda assim, tudo em que conseguia pensar era em um homem que conheci por apenas cinco minutos.
Peguei o celular e toquei na tela com o polegar. Não havia nenhuma mensagem nova. Suspirei e o deixei cair sobre a cama ao meu lado.
— É melhor esquecer aquele cara. Além de parecer me odiar à primeira vista, ele é um alfa dominante. Nós dois não temos nada em comum.
O dia seguinte amanheceu um pouco mais quente que o anterior, mas, enquanto eu seguia para a biblioteca pela segunda vez, rajadas de ar gelado castigavam impiedosamente a mim e aos outros pedestres. Só quando entrei na sala de estudos que havia usado no dia anterior foi que meu corpo começou a descongelar. Me sentindo mole como um bolinho de arroz, estendi a mão e abri o livro que havia escolhido para estudar naquela vez.
Como era uma manhã de dia útil, a biblioteca estava relativamente tranquila, mas mais da metade dos lugares da sala de estudos estava ocupada. Provavelmente, a maioria das pessoas ali era formada por estudantes se preparando para as próximas provas. Os únicos sons que eu ouvia eram os das pessoas escrevendo e das páginas sendo viradas. Muitas mãos deviam ter passado pela ampla mesa de madeira à minha frente, mas, provavelmente por se tratar de uma biblioteca recém-inaugurada, ela ainda estava brilhante e parecia nova em folha.
Nunca havia pensado muito em escolher um bom ambiente para estudar. Para ser sincero, aquilo não me parecia tão importante. Por isso, fiquei surpreso ao descobrir o quanto o ambiente ao meu redor me estimulava. Concentrar-me na leitura depois de passar três anos sem tocar em um livro não era exatamente fácil, mas sentir o entusiasmo das pessoas à minha volta realmente ajudava.
Embora estivesse determinado a avançar bastante nos estudos, apenas cinco minutos se passaram antes que surgisse minha primeira distração: uma mensagem que acabou de aparecer na tela do celular. Era de um colega com quem eu tinha amizade desde o primeiro ano da faculdade.
E aí, – dizia a mensagem. – Vc devia ter respeito suficiente pelos mais velhos (ou seja, eu) pra avisar q voltou pra casa.
Cara, tem certeza de que você está bem? – respondi. > Parece que seu cérebro congelou.
Quem dera,– ele respondeu. > Se eu virasse um bloco de gelo, poderia adiar minha formatura. Ficaria sendo estudante pra sempre se pudesse... Tô de saco cheio de procurar emprego.
Ainda dá tempo, – digitei, oferecendo a solução mais realista em que consegui pensar. > É só não aparecer nas provas finais.
Já pensei nisso, não vou mentir. Mas só ia acabar com minhas notas, e provavelmente me obrigariam a me formar de qualquer jeito.
Ri, mas a mensagem seguinte apagou meu sorriso.
Eles deixaram aquele desgraçado que te perseguiu escapar, e as notas dele eram uma porcaria. E ainda deram algum tipo de prêmio pra ele! Esses alfas dominantes se safam de tudo, que ódio.
Aquela informação não era novidade para mim, mas ainda assim não era agradável ouvi-la. Sem vontade de conversar sobre o assunto, decidi mudar de tema.
Você é um beta, então diga pra eles não pegarem leve com você e te expulsarem de uma vez.
Meu pequeno Yeonwoo... Olha só como você ficou cruel.
Soltei uma risadinha e voltei os olhos para o livro. Continuei estudando, e mais algumas mensagens chegaram. Respondi de vez em quando, nos intervalos em que parava de ler para fazer anotações sobre os assuntos que ainda não entendia direito.
Durante uma dessas pausas, vi uma mensagem surgir na tela do celular pelo canto do olho. Olhei na direção do aparelho, supondo que fosse meu amigo de novo, mas, quando li a mensagem, meu coração parou.
Onde você está?
A pessoa que havia me mandado a mensagem não se deu ao trabalho de dizer quem era, mas aquelas três palavras foram suficientes para que eu soubesse. Meu coração deu um salto – ou talvez “estremeceu” fosse uma descrição melhor.
Fiquei olhando para aquela pergunta simples por um longo tempo, até finalmente criar coragem para conferir o número de origem. Quando o abri, descobri que minha suspeita estava correta: pertencia ao tio do ômega. Ele realmente havia entrado em contato comigo.
Meio surpreso, meio perplexo, respondi:
Estou na biblioteca.
Fiquei encarando a tela do celular, esperando uma resposta, até que ela apagou. Por fim, passou tempo suficiente para que eu me obrigasse a voltar ao livro, mas continuei lançando olhares furtivos ao celular para conferir se havia recebido alguma notificação.
Muito tempo se passou, mas nenhuma resposta chegou. Será que ele realmente havia me mandado aquela mensagem sem motivo algum? Talvez quisesse que eu avisasse caso o estudante do ensino médio alfa estivesse por perto...?
Meus pensamentos ficaram cada vez mais absurdos, até que finalmente não aguentei mais e virei o celular com a tela para baixo.
Então, cerca de vinte minutos depois de eu voltar a mergulhar no livro, alguém puxou a cadeira do outro lado da mesa e se sentou. Eu nem teria me dado ao trabalho de olhar para a pessoa se não fosse por um detalhe: ela tinha um cheiro muito, muito sutil de floresta no inverno.
Hã?! Levantei a cabeça bruscamente e encarei, surpreso, o homem que acabou de se sentar. Fiquei olhando para ele, completamente paralisado, enquanto ele me cumprimentava com um leve aceno. Rapidamente, retribuí o gesto.
Por que ele estava ali? Eu não podia perguntar em voz alta, já que estávamos na biblioteca.
Foi então que meu celular vibrou com uma mensagem.
Você gosta de café?
Segurei entre os dedos o copo de papel com o café que havia comprado na máquina de bebidas, esperando que esfriasse um pouco. Aquela era a única maneira de colocar meu plano em prática: virar o café de uma vez e ir embora.
Embora tentasse não prestar atenção nele, não conseguia deixar de me incomodar com a presença do alfa dominante à minha frente. Seus feromônios eram sutis – eu precisava me esforçar para sentir sequer um vestígio do cheiro –, mas gostava tanto daquele aroma que isso me deixava inquieto. Já havia conhecido outros alfas dominantes, mas nenhum deles tinha feromônios tão atraentes quanto os daquele homem.
Tentando não deixar isso evidente, afastei minha cadeira um pouquinho.
— Você veio atrás do estudante alfa do ensino médio? – perguntei.
O tio do ômega estava olhando para o copo de papel, assim como eu, mas, ao ouvir minha pergunta, ergueu os olhos e sorriu.
— Não.
No dia anterior, ele havia passado a impressão de ser uma pessoa fria e inflexível, talvez por estar sempre me encarando de maneira tão severa. Mas, quando sorriu, foi como se tivesse se transformado em uma pessoa completamente diferente. Aquela visão me fez reavaliar sua idade, como se ele fosse alguns anos mais jovem do que eu havia imaginado, mas ainda assim não consegui descobrir quantos anos tinha. Examinei seu rosto com mais atenção, tentando encontrar outras pistas, mas ele evitou meu olhar e afastou a franja com os dedos.
Pensando bem, ele estava com um penteado diferente naquele dia. Na véspera, a franja caía solta sobre a testa, mas agora estava claramente arrumada de lado com algum gel. Era um visual elegante e profissional, especialmente combinado com o casaco curto de lã que usava. — Será que ele tem uma reunião importante mais tarde?
Eu, por outro lado, estava usando o mesmo casaco acolchoado de inverno do dia anterior, combinado com um suéter folgado. A constatação me fez sentir insignificante. Era a primeira vez que me preocupava tanto com a roupa que vestia na frente de alguém, o que só aumentou meu constrangimento.
— Vim estudar – explicou finalmente o tio do ômega.
Ah, é verdade. Afinal, aquilo era uma biblioteca. Parecia um motivo perfeitamente válido, então me preparei para assentir, mas uma pergunta surgiu de repente na minha mente.
— Então por que pediu para me encontrar?
— Porque também preciso encontrar aquele estudante alfa do ensino médio de algum jeito.
— Mas ele não deveria estar cochilando na escola a esta hora?
Os lábios do tio do ômega se curvaram, e ele soltou uma risada baixa. Eu não havia dito nada engraçado – pelo menos, até onde sabia –, mas o brilho divertido em seus olhos parecia indicar o contrário.
Surpreso com o quanto ele estava diferente em comparação com o dia anterior, tudo o que consegui fazer foi lhe oferecer um sorriso sem jeito.
— Por que “cochilando” e não “estudando”? – perguntou o tio do ômega, num tom descontraído. — É porque ele é um alfa?
O sorriso desapareceu dos meus lábios.
— Eu... Não quis ofender.
— Mesmo que tivesse sido uma ofensa, teria sido bem leve.
Fiquei constrangido com a resposta generosa. Claro, eu só havia dito aquilo como uma brincadeira, mas minhas palavras claramente tinham sido motivadas por preconceito. E não era só isso: meus próprios preconceitos estavam tão profundamente enraizados que eu nem sequer hesitei antes de fazer um comentário daqueles na cara de um alfa.
Queria pedir desculpas, mas havia hesitado por tempo demais, e agora o momento já tinha passado. Em vez disso, fiquei mexendo no copo de papel entre as mãos.
O tio do ômega também segurava o copo de café entre os dedos, mas suas mãos eram tão grandes que o recipiente parecia um copinho de dose em comparação. Fascinado, fiquei observando seus dedos longos e elegantes, que se estendiam até as palmas enormes.
Sentindo-me subitamente acanhado, voltei a atenção para o meu próprio café, que agora estava morno, e comecei a bebê-lo o mais rápido que pude.
— A que horas você chegou? – perguntou o tio do ômega.
O som da voz dele me pegou desprevenido, e eu me engasguei.
Com a elegância de uma criança de três anos, cuspi café pelos lábios, espalhando-o por toda a frente da camisa.
Peguei o lenço que guardava em um dos bolsos e o pressionei contra a mancha, mas o café já havia penetrado profundamente no tecido grosso do meu suéter.
— Droga, vou ter que usar isso para trabalhar hoje à tarde...
— Ah, desculpe – respondi. — Cheguei há... uns trinta minutos, acho?
Eu ainda tentava desesperadamente remover as manchas de café com o lenço quando o tio do ômega começou a me ajudar, pressionando um pouco de papel absorvente contra meu peito.
— Tudo bem – falei depressa. — Eu consigo cuidar disso.
Comentários do capítulo 6
Converse sobre este capítulo. Marque spoilers para proteger outros leitores.