DecemberCapítulo 7
Constrangido, ergui as mãos para impedi-lo de continuar, mas ele continuou pressionando firmemente o bolo de lenços contra minha camisa. Já era constrangedor o suficiente ter derramado meu café e feito aquela bagunça, mas a mão dele sobre meu peito – mesmo com o suéter entre nós – fez meu corpo ficar tenso e me deixou paralisado.
— Sério, está tudo bem. – repeti.
Ainda assim, ele não recuou. Sem outra opção, segurei o pulso do tio do ômega com uma das mãos e me afastei dele o máximo que consegui.
É claro que, a partir daí, as coisas só ficaram mais constrangedoras. O tio do ômega ficou imóvel, e seus olhos se voltaram para o lugar onde minha mão agarrava seu braço antes de subirem lentamente até meu rosto. Um pouco intimidado, afrouxei o aperto.
O tio do ômega ergueu os olhos para mim.
— Você fica desconfortável comigo por eu ser um alfa? – perguntou em voz baixa.
A pergunta veio acompanhada pelo sutil aroma amadeirado de uma floresta no inverno.
— Ah... Sim – admiti.
Eu não era do tipo que fazia comentários ofensivos, a menos que detestasse alguém profundamente, mas o tio do ômega era uma exceção. Eu não o odiava, porém meus instintos me diziam para manter distância. A maneira como o leve aroma de seus feromônios despertava um calor dentro de mim era perigosa.
— Controle-se, Yeonwoo.
Afastei a cadeira e me levantei. Quando voltei a olhar para o tio do ômega, sabia que meu rosto havia ficado rígido.
Ele me encarou por alguns instantes, com o olhar firme. Sua expressão era completamente indecifrável.
— Você sente atração por mim? – perguntou, afastando a franja da testa.
— Não. – respondi com firmeza.
Era verdade. Provavelmente.
— Então não deveríamos ter problemas. Podemos ir devagar.
— Ir devagar com o quê?
Ele deu de ombros, com uma naturalidade desconcertante. O gesto não tinha nada de especial, mas sua beleza o transformava em algo digno de um filme.
— Com nos acostumarmos um com o outro.
Pisquei, apertando involuntariamente o lenço na mão.
— Isso é mesmo necessário...?
Ele assentiu.
— Até eu pegar aquele estudante alfa do ensino médio, vamos continuar nos encontrando. Como mencionei ontem, você é a única pessoa por aqui que sabe como ele e os amigos dele são. Gostaria que trabalhássemos juntos.
— Você realmente pretende pegá-lo?
— Sim – declarou, com os olhos brilhando com tanta intensidade que, por um instante, temi que ele fosse entrar em combustão espontânea.
Aquela expressão era um tanto preocupante quando se pensava no bem-estar daquele estudante alfa do ensino médio a longo prazo, mas eu não tinha tempo a perder me preocupando com outra pessoa. O tio do ômega já havia pedido minha ajuda duas vezes, e seria cada vez mais difícil recusá-lo conforme o tempo passasse. Se quisesse continuar frequentando aquela biblioteca sem acabar envolvido em algum possível problema, precisava oferecer algum tipo de alternativa.
— Que tal eu simplesmente ligar para você se o vir? – sugeri. — Normalmente, fico aqui só até umas cinco da tarde. Isso seria suficiente?
— Você pretende vir aqui todos os dias?
— Ah, sim. – confirmei.
— Eu também.
— Certo... – respondi lentamente, começando a considerar a possibilidade de procurar outra biblioteca.
— Não vou atrapalhar seus estudos. – acrescentou ele, de maneira brusca.
— Não, quer dizer... Não foi por isso que fiz aquela sugestão. – respondi fracamente.
Quebrei a cabeça tentando encontrar uma desculpa melhor, mas, como nada me ocorreu, um silêncio desconfortável se estendeu entre nós.
Era difícil dizer a verdade. Como eu poderia confessar algo como: Tenho medo do quanto me sinto atraído por você. Só o cheiro sutil dos seus feromônios já faz meu coração disparar, mas você é um alfa completamente fora do meu alcance.
Além disso, mesmo que quisesse, não achava que conseguiria pronunciar aquelas palavras.
— Ótimo. – disse o tio do ômega. — Então nos vemos todos os dias na biblioteca.
Suas palavras atravessaram meu coração como uma flecha.
— Todos os dias?!
Desesperado, tentando encontrar qualquer coisa que me servisse como último recurso, perguntei:
— V-você não precisa ir à faculdade?
— Tranquei a matrícula por um tempo. E você, sunbae Yeonwoo?
N/:sunbae é veterano ou sênior. Ele é usado para se dirigir a alguém que tem mais experiência ou que entrou antes de você em um determinado ambiente, como na escola, na faculdade, no trabalho ou na indústria do K-pop.
De repente, fiquei tímido, como se ele tivesse derrubado todas as minhas defesas simplesmente por chamar meu nome.
— Fiz a mesma coisa. – respondi, usando toda a minha força para impedir que aquele emaranhado de emoções transparecesse no meu rosto. — Vou voltar para a universidade no ano que vem.
Eu pretendia dizer a ele que deveria se concentrar nos estudos caso respondesse que era estudante, mas só havia encontrado mais uma coisa que tínhamos em comum. Não podia lhe dar outro motivo para nos aproximarmos.
— Vou encontrar aquele estudante alfa do ensino médio o mais rápido possível, e...
— Qual universidade?
— W.U. – respondi imediatamente, sem pensar muito.
A expressão indecifrável do tio do ômega se desfez, e a surpresa tomou conta de seu rosto. Uma sensação sinistra percorreu meu corpo da cabeça aos pés.
Com a voz baixa e deliberada de alguém que tentava conter à força uma onda de emoções, ele respondeu:
— Então acho que isso faz de você meu sunbae.
Depois de atingirem a maturidade, os ômegas entram no cio aproximadamente seis vezes por ano. Alguns dizem que os ômegas deveriam agradecer por isso, já que só precisam lidar com o cio a cada dois meses, em vez de menstruar todos os meses, como as mulheres beta. Mas a situação não é tão simples quanto parece.
Durante o cio, os cinco sentidos de um ômega ficam hipersensíveis. Isso é especialmente verdadeiro quando ele entra no cio mesmo depois de ingerir ervas supressoras.
O sentido mais afetado nessas circunstâncias é o olfato. Um ômega que apresenta sintomas tardios de cio passa a perceber todo tipo de feromônio, inclusive aqueles que normalmente não conseguiria detectar. É claro que nem todos provocam excitação sexual, mas a possibilidade de os feromônios de um alfa dominante desencadearem uma reação aumenta grandemente quando o ômega se encontra nesse estado. Além disso, também cresce a probabilidade de ele encontrar alguém que libere feromônios que sejam do seu tipo – um fenômeno em que um tipo muito específico de feromônio, único para cada ômega, provoca nele uma excitação intensificada.
Alguns betas chamam encontros assim de destino, mas usar uma palavra tão romântica para descrever a excitação animalesca que vem em seguida é generoso demais. Só os primitivos guiados pelos instintos pensam dessa maneira. O restante de nós sabe que desenvolver uma conexão emocional com o parceiro é essencial para construir um relacionamento saudável, e que depender apenas da atração física só leva ao desastre.
Eu havia feito o possível para evitar esse tipo de desastre desde meu primeiro cio, que ocorreu quando eu estava no ensino fundamental. Tomei diligentemente todas as precauções necessárias para me proteger, vivendo em um estado constante de vigilância e preparação. Até hoje, ninguém conseguiria me encontrar sem um pacote de ervas supressoras no bolso, mesmo que ainda faltassem semanas para meu próximo cio.
Então, por que, diante daquele alfa dominante em particular, que eu conhecia havia apenas um dia, eu estava me segurando para não abandonar os honoríficos?
— H-hoobaenim, você também tirou um ano de licença?
N/: Geralmente, um universitário chama alguém de um ano abaixo pelo nome seguido do sufixo “hoobae”. No entanto, Yeonwoo decide continuar usando também o honorífico “nim”, por formalidade e por desejar manter uma distância mais figurativa entre os dois.
— Sim. – confirmou ele. — Mas você não precisa ser tão formal comigo, Yeonwoo sunbae. Pode deixar de usar os honoríficos.
— É, não acho que isso vá acontecer tão facilmente.
Por muito pouco, consegui impedir que o pensamento escapasse em voz alta.
Mais importante, como ele havia descoberto que eu era mais velho só por saber que eu tinha interrompido os estudos? A maioria das pessoas dizia que eu parecia mais jovem do que realmente era, então não era como se meu rosto tivesse me denunciado.
— Como você soube...?
— Você vai voltar para...
Nós dois paramos, encarando um ao outro de maneira constrangedora. Como não tinha para onde olhar, desviei os olhos. Ele fez o mesmo, mas eu poderia jurar que vi um sorriso se formar em seus lábios.
Na maior parte do tempo, ele parecia tão frio e ameaçador que seu olhar penetrante e sua expressão séria lhe davam um ar assustador. Quando ria ou sorria, porém, era como se seu rosto inteiro se transformasse. De repente, ele parecia... muito fofo.
Chocado com o rumo que meus pensamentos estavam tomando, voltei instintivamente a ficar na defensiva.
— Vamos lá, todo mundo fica fofo quando sorri! Até as vovozinhas!
— Yeonwoo Sunbae, pode falar primeiro.
— B-bem, eu... Eu só queria dizer...
Minha voz foi sumindo, pois eu havia perdido completamente o fio do que estava prestes a dizer segundos antes. Confuso, desviei o olhar dele novamente, mas então me lembrei do que ele estava tentando perguntar e decidi responder àquilo.
— Ah! Sim, vou voltar para a universidade no ano que vem. E você?
— Esse também era o meu plano.
— Ah, então vamos frequentar as aulas ao mesmo tempo.
Meu coração perdeu uma batida. Passei a língua pelos lábios e os mordi na tentativa de ignorar aquela sensação.
— Bem, então que tal garantirmos um bom ano letivo voltando aos estudos? – sugeri depois de um instante.
Me levantei e esperei que ele fizesse o mesmo, mas tudo o que ele fez foi mover lentamente o olhar da parte inferior do meu rosto até meus olhos.
— Ele estava olhando para os meus lábios?
— Este será meu segundo ano na universidade. – disse o tio do ômega, agindo como se eu nem tivesse falado. — E você, Yeonwoo sunbae?
Sem outra escolha, voltei a me sentar e respondi à pergunta.
— Tranquei a matrícula por três anos, então também será meu segundo ano. – respondi, relutante.
Era difícil acreditar que nós dois estaríamos no mesmo ano.
— É quase como se o destino tivesse nos unido. – comentou o homem sentado do outro lado da mesa.
Realmente parecia... mas, com certeza, não era o caso. As pessoas tiravam anos de licença dos estudos o tempo todo.
— Se fosse assim, então todos os alunos do segundo ano da nossa universidade também teriam sido unidos pelo destino. – respondi, abrindo os braços para enfatizar a quantidade absurda de pessoas. – Somos cerca de quatro mil, todos ligados pela mesma sorte.
Pelo visto, ele não levou a sério minha argumentação, pois apenas abriu um sorriso.
— Fico feliz por ser um dos seus quatro mil. – disse, soltando uma risada grave.
— Mas você não está curioso?
Sua risada era baixa e aveludada, e o som envolveu meu coração em uma onda de calor reconfortante. Não era justo. Como aquele homem podia ser tão bonito e ainda ter uma voz tão irresistível? A culpa era dele por eu ficar olhando para ele como se estivesse hipnotizado, quase me esquecendo completamente da segunda parte do que havia dito.
— C-curioso sobre o quê? – respondi.
— Meu nome.
O nome dele. Era óbvio que eu deveria ter perguntado muito antes. Ainda assim, as palavras não queriam sair da minha boca. A falta daquela informação parecia ser minha última linha de defesa em um castelo prestes a desmoronar. Como se, assim que eu soubesse seu nome, não tivesse mais nenhuma maneira de me proteger.
Uma sirene soava incessantemente no fundo da minha mente, avisando que eu não deveria permitir que nos aproximássemos ainda mais.
Mas... eu queria saber o nome dele. Estava curioso.
— Qual é o seu nome? – perguntei, cedendo.
Ele não respondeu de imediato, e seus olhos baixaram. Tive a sensação de que estava olhando para a nuca, o que fez todo o meu corpo ficar tenso. Eu ainda não tinha a marca de mordida que me identificaria como alguém comprometido pelo resto da vida. Embora tivesse a sorte de ainda não possuir uma, sabia muito bem o quanto isso me deixava vulnerável ao perigo.
Antes que percebesse, comecei a coçar a nuca, protegendo-a do olhar dele com o dorso da mão.
Seus olhos negros como breu voltaram a se erguer e encontraram os meus.
— Kim Shin. – respondeu.
— Yeonwoo, vá fazer uma pausa de vinte minutos.
A ordem veio do subchef indiferente do restaurante onde eu havia conseguido um emprego de meio período. Ele só falava comigo para dar ordens. Já eram por volta das nove da noite, e o movimento de clientes no salão começava a diminuir.
Assenti em sinal de compreensão e agradeci rapidamente, depois me virei para sair da cozinha. Assim que estava prestes a cruzar a porta, encontrei Kijoon, que vinha na direção oposta carregando uma pilha de pratos sujos.
— Aonde você vai? – perguntou.
— Fazer uma pausa.
Apontei para a entrada dos fundos do restaurante, e os olhos dele se arregalaram.
— Hã? O subchef deixou você fazer uma pausa?
— Sim. Por quê?
— Porque ele quase matou os outros funcionários de meio período de tanto trabalho. Fico me perguntando o que deu nele.
— Talvez eu seja muito bom no meu trabalho.
Kijoon fez beicinho e entrou na cozinha.
— Eu sabia! – ouvi-o murmurar baixinho. — Aquele desgraçado favorece totalmente as pessoas bonitas.
Confuso, levei a mão à bochecha.
— Mas não acho que eu esteja tão quente assim. Mal estou suando...
Empurrei a porta dos fundos e dei um passo para fora. A impressão de que o subchef havia sido gentil comigo morreu imediatamente: fazia tanto frio que era como se eu estivesse em uma extensão de tundra. O vento cortava minhas bochechas como lâminas enquanto eu encolhia os ombros e olhava ao redor, procurando algum lugar onde pudesse me abrigar.
Infelizmente, uma busca minuciosa ao meu redor revelou que não havia absolutamente nenhum lugar onde eu pudesse me esconder. A área era basicamente um jardim bem cuidado, completamente exposto aos elementos. Mesmo assim, eu não queria voltar para dentro. Havia passado quatro horas seguidas lavando pratos e carregando bandejas, e queria aproveitar cada segundo dos meus vinte minutos de liberdade.
Segui em direção à minha única opção prática para me abrigar: a loja de conveniência ao lado. Só a temperatura agradável lá dentro já tornou tudo muito mais suportável.
O interior da loja estava praticamente vazio, com exceção de duas pessoas. A primeira era um funcionário com cara de poucos amigos, que me encarava de trás do caixa. A segunda era um senhor idoso que parecia ser cliente. Ele estava parado bem diante de uma pequena mesa, mais ou menos à altura do peito, destinada a quem quisesse comer macarrão instantâneo. O homem encarava a janela.
Sem pensar muito, fui até o balcão escolher uma bebida quente. Não estava com vontade de tomar nada em particular, mas não seria muito educado ficar vagando pela loja sem comprar coisa alguma.
Examinei as bebidas no expositor aquecido, até que meus olhos pousaram em uma garrafa de vidro familiar. Era da mesma marca que Kim Shin havia me entregado depois de correr atrás de mim. Eu tinha me esquecido dele por estar tão ocupado no trabalho, mas bastou aquele pequeno lembrete para que os pensamentos sobre ele inundassem cada canto da minha mente.
Eu conseguia me lembrar vividamente de cada detalhe do momento em que ele disse seu nome: seu olhar sincero voltado para mim, sua voz grave e rouca, a maneira como os cabelos sedosos caíam sobre a testa... Até mesmo seu cheiro. Seus feromônios haviam se espalhado ao meu redor enquanto seus lábios formavam aquelas palavras, provocando um arrepio eletrizante e gelado que percorreu meu corpo das mãos aos pés.
Para dizer a verdade, eu não me lembrava de muita coisa depois daquilo. Estava ocupado demais tentando não olhar para ele e inventando desculpas para voltar à sala de estudos, a fim de impedir que percebesse o quanto meu coração estava disparado.
Não era de admirar que eu tivesse entrado em pânico. Nunca havia sentido nada parecido antes de conhecê-lo. Por que meu corpo havia reagido tão intensamente aos feromônios dele? Ele podia ser um alfa dominante, mas eu nem sequer estava no cio...
— Senhor, por favor, compre alguma coisa se vai continuar parado aí – disse uma voz profundamente reprovadora.
Dei um pulo, voltando abruptamente à realidade. Me virei para pedir desculpas ao funcionário mal-humorado da loja de conveniência – No qual o crachá trazia a palavra “Gerente”, mas logo percebi que ele não estava falando comigo.
Seus olhos estavam fixos no senhor idoso perto da janela, que estava tão absorto observando o mundo lá fora que mantinha o rosto pressionado contra o vidro. Mesmo assim, reservou um instante para lançar um olhar irritado ao gerente da loja.
— Eu comprei o bilhete de loteria, lembra? – resmungou o idoso.
— Sim, ontem.
O gerente inclinou a cabeça para o lado e passou a encará-lo com ainda mais desprezo.
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